SETE GLORIOSAS VERDADES SOBRE DEUS

SETE GLORIOSAS VERDADES SOBRE DEUS

Por John Piper¹

“No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. As bases do limiar se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça” (Is 6.1-4).

1. Deus está vivo

Primeiro, ele está vivo. No ano em que o rei Uzias morreu. Uzias está morto, mas Deus continua vivo. “De eternidade a eternidade, tu és Deus” (Salmos 90.2). Deus era o Deus vivo quando este universo passou a existir. Ele era o Deus vivo quando Sócrates bebeu veneno. Ele era o Deus vivo quando William Bradford governou a Colônia de Plymouth. Ele era o Deus vivo em 1966, quando Thomas Altizer proclamou sua morte e a revista Time estampou isso na sua capa. E ele será o Deus vivo daqui a dez trilhões de anos, quando todos os insignificantes disparos contra sua realidade tiverem caído no esquecimento, como tiros de espoleta no fundo do Oceano Pacífico.

“No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor”. Não há um único chefe de Estado em todo o mundo que ainda estará lá daqui a cinquenta anos. A rotatividade na liderança mundial é de 100%. Mas não é assim com Deus. Ele nunca teve um começo e, portanto, não depende de nada para sua existência. Ele sempre foi e sempre estará vivo.

2. Deus possui autoridade

Em segundo lugar, ele possui autoridade. “Eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono”. Nenhuma visão do céu jamais contemplou Deus arando um campo, cortando grama, engraxando sapatos, preenchendo relatórios ou carregando um caminhão. O céu não está desmoronando pela falta de cuidado. Deus nunca verá o fim de seu reino celestial. Ele se assenta. E ele se assenta em um trono. Tudo está em paz e ele tem controle.

O trono é o seu direito de governar o mundo. Não damos autoridade a Deus sobre nossas vidas. Ele a tem, quer gostemos ou não disso. Que total loucura é agir como se tivéssemos qualquer direito de colocar Deus em questão! Precisamos ouvir, de vez em quando, palavras como as que Virginia Stem Owens disse no Reformed Journal:

Vamos esclarecer uma coisa. Deus pode fazer tudo o que bem entender, com todas as coisas. E se algo lhe agrada, então é feito, ipso facto, bem. A atividade de Deus é o que é. Não há mais nada. Sem isso, não haveria seres, incluindo seres humanos que presumem julgar o Criador de tudo o que existe.
Poucas coisas são mais humilhantes, poucas coisas nos dão aquele senso de majestade pura, quanto a verdade que Deus tem absoluta autoridade. Ele é o Supremo Tribunal, o Legislativo e o Chefe do Executivo. Depois dele, não há recursos.

3. Deus é onipotente

Terceiro, Deus é onipotente. O trono de sua autoridade não é um entre muitos. É alto e sublime. “Eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono”. O trono de Deus ser mais alto que qualquer outro trono indica o poder superior de Deus para exercer a sua autoridade. Nenhuma autoridade oposta pode anular os decretos de Deus. O que ele propõe, ele realiza. “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.10). “Segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35). E essa autoridade soberana do Deus vivo é um refúgio repleto de alegria e poder para aqueles que guardam o seu pacto.

4. Deus é resplandecente

Quarto, Deus é resplandecente. “Eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo”. Você já viu fotos de noivas cujos vestidos são colocados em volta delas cobrindo os degraus e a plataforma. Qual seria o significado se a cauda preenchesse os corredores e cobrisse os assentos e o coral, como um tecido de uma peça só? O manto de Deus preencher todo o templo celestial significa que ele é um Deus de incomparável esplendor. A plenitude do esplendor de Deus se mostra de mil maneiras.

Eu costumava ler Ranger Rick. Lembro-me de um artigo sobre espécies de peixes que vivem no fundo do mar escuro e têm suas próprias luzes — algumas têm espécies de lâmpadas penduradas em seus queixos, algumas têm narizes luminescentes, algumas têm faróis sob os olhos. Existem milhares de peixes com luz própria que vivem nas profundezas do oceano, onde nenhum de nós pode vê-los e se maravilhar. Eles são espetacularmente estranhos e belos. Por que eles estão lá? Por que não há apenas uma dúzia de tipos simples e eficazes? Porque Deus é exuberante em esplendor. A sua plenitude criativa transborda em beleza excessiva. E se o mundo é assim, quanto mais resplandecente deve ser o Senhor que o imaginou e o fez!

5. Deus é reverenciado

Quinto, Deus é reverenciado. “Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava”. Ninguém sabe o que são essas estranhas criaturas de seis asas com pés, olhos e inteligência. Eles nunca mais aparecem na Bíblia — pelo menos não sob o nome de serafins. Dada a grandeza da visão e o poder das hostes angelicais, será melhor não imaginarmos bebês gordinhos e com asas voando diante do Senhor. De acordo com o versículo 4, quando um deles fala, os alicerces do templo tremem. Faríamos melhor se pensássemos nos Blue Angels — aqueles quatro jatos que voam em formação — voando diante da comitiva presidencial e rompendo a barreira do som bem diante de seu rosto. Não há criaturas insignificantes ou bobas no céu. Apenas seres magníficos.

E o ponto é: Nem mesmo eles conseguem olhar para o Senhor, nem se sentem dignos de deixar os seus pés expostos diante da presença dele. Grandiosos e bons como são, incontaminados pelo pecado humano, reverenciam o seu Criador com grande humildade. Um anjo atemoriza um homem com seu resplendor e poder. Mas os próprios anjos se escondem em santo temor e reverência diante do esplendor de Deus. Ele é continuamente reverenciado.

6. Deus é santo

Sexto, Deus é santo. “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos”. A linguagem força os seus limites de utilidade aqui. O esforço para definir a santidade de Deus acaba por dizer: Deus ser santo significa que Deus é Deus.

Permita-me fazer uma ilustração. A raiz do significado de santo é provavelmente “ser cortado” ou “separado”. Algo santo é cortado e separado do uso comum (poderíamos dizer: secular). As coisas e pessoas terrenas são santas quando são separadas do mundo e dedicadas a Deus. Assim, a Bíblia fala sobre a terra santa (Êx 3.5), assembleias santas (Êx 12.16), sábados santos (Êx 16.23), uma nação santa (Êx 19.6), vestes santas (Êx 28.2) uma cidade santa (Ne 11.1), promessas santas (Sl 105.42), homens santos (2Pe 1.21) e mulheres santas (1Pe 3.5), escrituras santas (2Tm 3.15), mãos santas (1Tm 2.8), beijo santo (Rm 16.16) e uma fé santa (Jd 1.20). Quase tudo pode se tornar santo se for separado do uso comum e dedicado a Deus.

Porém, observe o que ocorre quando essa definição é aplicada ao próprio Deus. Do que você pode separar Deus para torná-lo santo? A própria divindade de Deus significa que ele é separado de tudo o que não é Deus. Existe uma diferença qualitativa infinita entre Criador e criatura. Deus é único. Sui generis. Ele é distinto. Nesse sentido, ele é totalmente santo. Mas, então, você não disse mais do que ele ser Deus.

Ou, se a santidade de um homem deriva de estar separado do mundo e dedicado a Deus, a quem Deus se dedica para obter a sua santidade? A ninguém além de si mesmo. É uma blasfêmia dizer que existe uma realidade superior a Deus à qual ele deve se conformar para ser santo. Deus é a realidade absoluta, além da qual há apenas mais de Deus. Quando perguntado sobre seu nome em Êxodo 3.14, ele disse: “EU SOU O QUE SOU”. Seu ser e seu caráter são totalmente indeterminados por qualquer coisa fora dele mesmo. Deus não é santo porque observa as regras. Ele escreveu as regras! Deus não é santo porque ele guarda a lei. A lei é santa porque revela Deus. Deus é absoluto.

Todo o restante é derivado.

Então, o que é a sua santidade? É o seu valor infinito. A sua santidade é a sua essência divina absolutamente única, que em sua singularidade tem valor infinito. Ela determina tudo o que ele é e faz, e não é determinada por ninguém. A sua santidade é o que ele é como Deus, o que ninguém mais é ou jamais será. Chame isso de sua majestade, sua divindade, sua grandeza, o seu valor como a pérola de grande valor.

Por fim, a linguagem se esgota. Na palavra “santo”, navegamos para o fim do mundo no silêncio absoluto de reverência, maravilha e assombro. Ainda pode haver mais para conhecer sobre Deus, mas isso estará além das palavras. “O SENHOR, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Hc 2.20).

7. Deus é glorioso

Mas antes do silêncio, do tremor das bases e da fumaça que tudo oculta, aprendemos uma sétima e última coisa a respeito de Deus. Deus é glorioso. “Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”.

A glória de Deus é a manifestação da sua santidade. A santidade de Deus é a perfeição incomparável da sua natureza divina; a sua glória é a exibição dessa santidade. “Deus é glorioso” significa que a santidade de Deus se tornou pública. A glória de Deus é a revelação clara do segredo de sua santidade. Em Levítico 10.3, Deus diz: “Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado…”. Quando Deus se revela santo, o que vemos é a glória. A santidade de Deus é a sua glória oculta. A glória de Deus é a sua santidade revelada.

Fonte: MinistérioFIEL

¹Sobre John Piper: John Piper é doutor em Teologia pela Universidade de Munique e fundador do desiringGod.org e chanceler no Bethlehem College & Seminary. Ele serviu por 33 anos como pastor principal da Bethlehem Baptist Church em Minneapolis, Minnesota. Piper é autor de diversos livros, incluindo Uma Glória Peculiar, Lendo a Bíblia de Modo Sobrenatural e Surpreendido por Deus, publicados pela Editora Fiel.

ENCONTRANDO ESPERANÇA NA PALAVRA EM MEIO AO LUTO

ENCONTRANDO ESPERANÇA NA PALAVRA EM MEIO AO LUTO

Rev. Héber Campos Jr.¹

Texto base: Salmo 73

Estamos vivendo um tempo diferente do usual, um momento de pandemia que trouxe consigo muitas mortes. Antigamente, era comum perder filhos que não chegavam à vida adulta, ou perder pessoas muito cedo. Se nossos antepassados sempre experimentaram mortes, hoje entendemos que o padrão é viver por muito tempo. Nossa mentalidade mudou com o tempo. Fomos enganados a confiar excessivamente na capacidade da medicina e da tecnologia de curar nossos males. Contudo, a realidade da morte está mais próxima do que vimos anteriormente.

O que é mais revelador na pandemia não é a morte ser real, mas a maneira como temos reagido às instabilidades. A pandemia revelou nossos temores, fraquezas e pecados que não estávamos habituados a enxergar. Analisemos, então, nossas fragilidades e nossa resposta às instabilidades que levam nosso coração a fraquejar. O Salmo 73 é importante nesse contexto. Ele revela nossos pecados e fraquezas que estão dentro de nós.

Primeiro de tudo, é preciso destacar a importância de termos consciência da nossa leitura da vida, da nossa cosmovisão e de como ela é reveladora. Parte de nossas perturbações se deve a perdermos de vista nosso destino final. Não tem a ver com o outro, mas com você e comigo. Independentemente da qualidade da teologia, funcionalmente falando, as pessoas vivem a vida sem o senso de chegada. Por isso temos tanta dificuldade para enfrentar certos problemas.

Sempre buscamos solução e descanso presente. Nunca falamos da ressurreição no último dia ao aconselhar. Não estamos acostumados a falar do porvir como nosso descanso presente. Não conseguimos encorajar as pessoas como Paulo o faz em 1 Coríntios 15, quando ele disse que, se nossa esperança se limita a essa vida, somos os mais infelizes de todos os homens. O Salmo 73 mostra a falência de oferecer consolo apenas com base no alívio presente. Frases simplistas como “Fica tranquilo, Deus está no controle” não percebem a complexidade da luta contra os problemas dessa vida. Apesar de ser verdadeiro, isso não revela os enganos sutis nem a solução bíblica para a aflição.

O Salmo 73 é o primeiro salmo do Livro III, o qual trata de muitos episódios negativos e tristes. A mensagem predominante é que o povo de Deus está sendo vencido, mas não que o povo esteja abandonado, mas para que acordem para o fato de não viverem longe de Deus.

Nosso foco revela nossa cosmovisão. Somos pessoas que com frequência oferecemos consolo presente. Por vezes definimos a vida abundante como uma experiência satisfatória em que tudo vai bem no presente. O problema está no controle que o desejo exerce sobre nós. Esperamos que tudo vá bem e nos frustramos quando isso não acontece. Esses desejos revelam como essa expectativa controla nosso coração. Mas esquecemos que a realidade eterna é real. Perdemos a eternidade de vista porque nos prendemos demais ao terreno.

Asafe havia perdido isso de vista (Sl 73.3-5, 12). Ele se preocupara com realidades visíveis e presentes. Por isso, ele acabou tirando conclusões baseadas no que vemos neste mundo. Temos certas expectativas que, embora nem sempre conscientes, nos fazem esperar certas coisas dadas como certas. O coração é nutrido de expectativas que nos frustram, pois a cosmovisão foi marcada por utopias. Mas nossas angústias não são fatos, e sim nossas interpretações. É preciso atentar para o fato de que nosso foco norteia nossa visão e nossas expectativas.

Quando lidamos com quem sofre, não devemos ser insensíveis; dores são resultados de causas reais. Mas os maiores problemas não são externos, não estão lá fora. Precisamos voltar nossa análise para o aspecto interno, para dentro de nós mesmos. Pensamentos, motivações e desejos devem ser descobertos.

Quais são os sintomas de que nosso foco está errado? Inveja (73.3), um pecado difícil de reconhecer, mas precisamos da graça de Deus para admitir que muitas vezes sentimos inveja. Em geral, não invejamos quem é muito diferente, mas quem é semelhante a nós, mas apenas um pouco melhor, ou que recebeu algo melhor. Achamos o sucesso daquela pessoa injusto. O salmista não inveja o sucesso de Davi, por exemplo, mas os maus, aqueles que não amam ao Senhor. A inveja trabalha mediante um senso de injustiça.

Um segundo sintoma: confusão (73.16). Ele não consegue entender o que Deus está fazendo. Em geral, confusão é sinônimo de que nosso coração não tem descanso. Elas não são difíceis num plano intelectual; são difíceis de engolir. Nossa aflição não é intelectual, mas porque estamos sofrendo. Como conciliar o sofrimento com a ideia de que Deus é bom?

Terceiro sintoma: desânimo (73.13-14), abatimento. A vida devocional esfria, a frequência nos cultos evapora. Por fim, amargura (73.21), a qual nem sempre é fácil de detectar e admitir. Há amarguras que são públicas, que são expressadas em murmuração. Algumas, entretanto, são veladas (73.15). É como se ninguém desconfiasse da amargura de Asafe. Por vezes temos receio de contar a alguém o que sentimos.

Esses são sintomas de que nosso foco está errado. Acabamos fazendo um juízo soberbo com relação aos outros, chamando-os de soberbos e violentos (73.6), invejosos e insatisfeitos (73.7), escarnecedores e maliciosos (73.8), irreverentes (73.9), promovem discípulos inconsequentes, pois as pessoas os seguem (73.10-11). Asafe está inconformado. Mas essa avaliação também é soberba, pois ela parte de justiça própria. Aqui o salmo é revelador: ele não profere mentiras. Os ímpios são tudo isso, mas Asafe não enxerga que essa leitura alimenta um coração que se julga melhor do que eles, que também cobiça, usa a língua indevidamente, etc. Asafe julgou que sua espiritualidade foi uma perda de tempo, e isso revela suas crenças. A conclusão de que Deus não é bom está enraizada nos desejos por coisas desse mundo. Isso é idolatria e determina nossas conclusões sobre a vida.

Mas como Deus muda nosso foco para não nos abatermos tanto com esse mundo? Diferente do que as pessoas pensam, a realidade do porvir é muito prática para nossos problemas presentes. Asafe tem um momento de descoberta (73.17), quando o tom do salmo muda. Quando ele entra na casa do Senhor, ele percebe o que Deus fará com os que não o temem. Há reviravolta de pensamento. Ele percebe a instabilidade (73.18) e a fugacidade de suas vidas (73.20). Tudo que ele almejava é passageiro.

Ele finalmente entendeu. Piedade é resultado da compreensão da verdade. Elas não se separam. Asafe mudou quando a teologia ficou clara, sendo lembrado do valor da segurança (73.23), sucesso (73.24), alegria (73.25) e riqueza em Deus (73.26). Deus não lhe dá o que ele queria em sua idolatria; foi seu foco que mudou. O amor por Deus lhe deu satisfação e fez de Deus sua prosperidade. Ele termina o salmo (73.27-28) de forma inteiramente diferente. Seu foco passou a ser a vida por vir. Este salmo avisa de que, se negligenciarmos o eterno peso de glória, podemos nos perder.

Eis algumas lições para encararmos as tristezas e dificuldades que são reais.

  1. Temos que aprender a perseverar entre o já e o ainda não. Realidades eternas não apenas vão acontecer, mas parte do porvir já começou. O fato de já termos a eternidade deve ser tremendamente encorajador. O Reino ainda não foi consumado, mas ele já é real. Cristo já tem toda a autoridade sobre todas as coisas.
  2. Sofrimento e caráter não são proporcionais. O mundo não recompensa de acordo com o caráter. Ser crente não implica vida tranquila. Nosso coração não o aceita facilmente, a não ser que temos uma noção do porvir. Justiça divina vai ser feita.
  3. É incrível estar com Deus quando a morte bate à porta. Podemos entender que mesmo morte prematura é benção para o fiel (73.24).

Não se indigne com a morte como o mundo o faz. É verdade que a morte não é natural, mas para nós morrer é lucro. Por isso faz sentido que nossos cultos fúnebres sejam recheados de alegria; mesmo em meio ao choro, podemos encontrar consolo e esperança. Lidaremos muito melhor com as tristezas da vida se nosso coração estiver firme na eternidade, quando experimentaremos o doce consolo do Deus de toda a consolação.

Fonte: VoltemosaoEvangelho.com

¹ Heber De Campos Jr. é bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano JMC. Mestre em História da Igreja pelo CPAJ – Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper e Doutor em Teologia Histórica pelo Calvin Theological Seminary.

POR QUE JESUS DORMIA DURANTE A TEMPESTADE?

POR QUE JESUS DORMIA DURANTE A TEMPESTADE?

Dr. Scott Redd¹

No Evangelho de Marcos, a história da tempestade no mar aparece logo após Jesus ter pregado uma série de sermões. Ele havia pregado para uma multidão tão grande que teve que falar de um barco ancorado a uma curta distância da margem.

Marcos 4.35-41 relata a história de Jesus acalmando a tempestade — mas, curiosamente, o Senhor estava adormecido quando o caos irrompeu ao seu redor:

“Ora, levantou-se grande temporal de vento, e as ondas se arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-se de água. E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro; eles o despertaram e lhe disseram: Mestre, não te importa que pereçamos? E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança;” (Mc 4.37-39).

Por que estava Jesus a dormir no barco?

Há algumas explicações possíveis. Marcos, assim como a maioria dos outros autores bíblicos, não nos dá muitos detalhes — incluindo apenas os elementos necessários à agenda do autor — portanto podemos supor que é um elemento importante para a história. Há três possibilidades:

1. Uma Conexão com Jonas.

Talvez Marcos nos tenha dito que Jesus estava dormindo para conectar a história a Jonas. A história de Jonas (em sua tradução grega), compartilha elementos e linguagem semelhantes à de Marcos 4, o que sugere que Marcos estivesse tentando evocar aquela história. Um destes elementos é a ideia do personagem principal estar dormindo no fundo do barco durante a tempestade, embora a linguagem usada para descrever Jonas seja mais vívida e possivelmente pejorativa.

2. Uma Indicação Sobre a Humanidade de Jesus.

Jesus é totalmente humano: trabalhava duro, fazia muitas preleções em público e lidava com muitas pessoas diferentes, todas elas querendo algo dele. Dadas as tensões que os ministros comuns vivenciam em seus trabalhos diários, o Jesus plenamente humano deve ter sofrido de exaustão durante seu ministério terreno.

3. Uma Indicação Sobre a Divindade de Jesus.

Embora Jesus seja humano, ele tem plena confiança em sua identidade divina. Como somente a segunda pessoa da Trindade poderia fazer, em meio ao caos, Jesus dormia como um bebê, seguro na percepção de que ele é um com o Criador, e sua hora ainda não havia chegado. Seu dormir indica um insight divino: Jesus sabia que não iria morrer naquela noite.

É claro que todas estas três explicações são possíveis ao mesmo tempo, pois a linguagem humana nas mãos de um autor competente, pode transmitir várias idéias complexas de uma só vez.

Por que Estas Três Opções?

Certamente, Jesus a dormir, tem o intuito de nos fazer pensar sobre a história de Jonas (a primeira opção), na qual uma tempestade suspeita acontece e é silenciada por Deus e todas as testemunhas ficam aterrorizadas. Lembre-se de que os marinheiros lançaram sortes perguntando: “por causa de quem nos sobreveio este mal?” A sorte caiu sobre Jonas. Eles relutantemente lançaram o profeta ao mar e imediatamente cessou o mar de sua fúria. A ênfase está em quem é que acalma a tempestade. O SENHOR, Criador dos céus e da terra acalmou a tempestade e os marinheiros sabem que acabaram de testemunhar a mão de Deus e sua completa autoridade sobre as forças da criação. Em Jonas 1.16, “Temeram, pois, estes homens em extremo ao SENHOR”. A tradução grega deste texto enfatiza o grande medo que os marinheiros sentiram ao verem o poder de Deus ser demonstrado. É até mesmo maior do que o medo da tempestade (1.5). É amedrontador saber que o Deus cósmico, que acalma a tempestade, também se importa com a rebelião de um único homem.

Em Marcos, Jesus também está a dormir. Os discípulos o despertam por medo de perder suas vidas (tal como em Jonas, aquele que dorme é despertado com uma pergunta retórica), e o vento e as ondas se aquietaram. Marcos parece estar chamando nossa atenção para o agente que acalmou a tempestade. Em Jonas o agente foi o SENHOR, mas em Marcos 4 foi Jesus. Jesus está para a tempestade em Marcos 4 como Deus estava para o vento e as ondas em Jonas 1.

E como que para enfatizar este ponto ainda mais, os discípulos que testemunharam tudo isto são descritos praticamente com a mesma fraseologia usada na tradução grega de Jonas. Ficaram “possuídos de grande temor” (Mc 4.41). A tempestade havia sido aterrorizante, mas este profeta no barco com o poder de falar a verdade aos elementos se torna um motivo inteiramente novo de medo. A autoridade de Deus inspira este tipo de medo naqueles que a observam em primeira mão.

Mas a segunda opção também é válida. Jesus a dormir no barco é um lembrete de sua humanidade. É uma ideia fascinante que houve momentos regulares em que o Deus-homem, o Senhor do universo, pode ter se deitado e ponderado alguns pensamentos aleatórios antes que o sono chegasse. Como humano, ele podia ficar cansado, até mesmo ao ponto de exaustão. Portanto, ele entra no barco e se deita, tal como um viajante de negócios em um voo noturno, tentando dormir enquanto pode. Os leitores de Marcos podem prontamente se identificar com a humanidade de Jesus.

A terceira opção também é convincente. Somente o fato de que Jesus ficou dormindo, é uma indicaçāo de sua divindade. De que maneira? Jesus não tinha medo do vento ou das ondas ou de qualquer coisa que estes lhe pudessem fazer. O Criador não necessita ficar inquieto diante de uma criação perigosa. Quando Jonas secretamente dormiu no porāo, ele fez isto com um espírito de fatalismo e de pavor. Quando Jesus dormiu na popa do barco, ele o fez em confiança. Ele não perdia o sono por causa de padrões climáticos.

Jesus é mais que um mestre; ele é um realizador de milagres. Quando o leitor compreende este ponto, Marcos aumenta a aposta mais ainda.

Jesus é mais que um mestre e mais que um realizador de milagres. Ele tem a autoridade do próprio Criador.

Fonte: CoalizãoPeloEvangelho.org

Dr. Scott Redd é presidente e professor associado do Antigo Testamento no Seminário Reformado Teológico, em Washington, DC, EUA. É o autor de “The Wholeness Imperative: How Christ Unifies our Desires, Identity, and Impact in the World” [O Imperativo da Totalidade: Como Cristo Unifica Nossos Desejos, Identidade e Impacto no Mundo] (Christian Focus, 2018) e de “Wholehearted: A Biblical Look at the Greatest Commandment and Personal Wealth” [De Todo o Coraçāo: Análise Bíblica do Maior Mandamento e da Riqueza Pessoal] (Institute for Faith, Work, & Economics, 2016), e ele regularmente escreve no blog sunergoi.com.

VOCÊ CONTINUARÁ CRENTE AMANHÃ?

VOCÊ CONTINUARÁ CRENTE AMANHÃ?

Por John Piper

Cristão, como você sabe que você será um crente quando você acordar de manhã? E cada manhã até você encontrar Jesus?

A resposta bíblica é: Deus vai cuidar disso.

Você está satisfeito com isso? Isso faz você ficar apreensivo ao admitir que depende decisivamente de Deus? Espero que isso seja sua alegria e canção. Crer assim tem grandes implicações. Deixe a palavra moldar a sua mente nisso.

DEVEMOS PERSEVERAR NA FÉ PARA ENTRAR NO PARAÍSO.

A palavra “devemos” em si mesma não é uma palavra evangélica. Em si mesma, dá a sensação de ameaça e peso. Mas não está por si mesma na Bíblia. “Devemos” ocorre junto de “ele vai” e “nós vamos”. “Nós devemos” se torna “nós vamos” porque “Deus vai”.

  • “Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo.” (Marcos 13:13). Nós devemos perseverar.
  • “Se perseveramos, também com ele reinaremos; se o negamos, ele, por sua vez, nos negará;” (2 Timóteo 2:12).
  • “Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho …por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra … a menos que tenhais crido em vão.” (1 Coríntios 15:1-2).

DEUS VAI CUIDAR DISSO.

A perseverança na fé não é devida a nossa primeira profissão de fé como a saúde é devida a uma vacina apenas. A perseverança na fé ocorre porque o grande médico faz o seu trabalho de sustentação todos os dias. Continuamos crendo em Cristo não por causa dos anticorpos deixados na conversão, mas porque Deus faz sua obra de dar a vida e preservar a fé todos os dias.

  • “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória,” (Judas 1:24).
  • “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.” (Filipenses 1:6).
  • “Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim.” (Jeremias 32:40).
  • “(Cristo) também vos confirmará até ao fim… Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.” (1 Coríntios 1:8-9).
  • “O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial” (2 Timóteo 4:18).

NÓS VAMOS PERSEVERAR NA FÉ.

Porque Deus vai cuidar disso, nós vamos — não apenas devemos — perseverar até o fim. Se fomos justificados pela fé, nós seremos glorificados. É tão certo quanto garantido.

“E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.” (Romanos 8:30).

QUATRO “R’S” DERIVAM DESSA SEGURANÇA.

Renúncia

Nós renunciamos o peso da auto-preservação. Nós paramos de nos agitar e deixamos o bombeiro valente nos carregar para fora casa que está queimando. Nós não conseguimos sair. Ele consegue. Ele vai. “Eu sei, ó SENHOR, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos.” (Jeremias 10:23).

Regozijo

Não ecoa o seu coração a alegria de Charles Spurgeon quando ele disse: “Oh querido amigos, o coração de alguém se regozija em pensar naqueles potentes deveres e afazeres — aqueles pilares inflexíveis que a morte e o inferno não podem abalar — os deveres e afazeres de um Deus” (The Metropolitan Tabernacle Pulpit Sermons, Vol. IX (364)? “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará.” (1 Tessalonicenses 5:24).

Repouso

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28). O jugo é suave e a carga é leve porque Deus diz: Eu vou te carregar e você vai repousar em mim. “Até à vossa velhice, eu serei o mesmo e, ainda até às cãs, eu vos carregarei; já o tenho feito; levar-vos-ei, pois, carregar-vos-ei e vos salvarei.” (Isaías 46:4).

Risco

Se você sabe que o seu futuro é seguro pelo seu onipotente e fiel Deus, as ameaças da terra e do inferno não podem evitar que você propague Sua Fama. A inferência que Paulo extraiu de “aos que justificou, a esses também glorificou” foi “Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8:31). Portanto, vamos correr o risco de “tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada” (Romanos 8:35). Porque nada pode nos separar do amor de Deus, que está em Cristo (Romanos 8:39).

FONTE: DesiringGod.com – clique aqui

E LHES ENXUGARÁ DOS OLHOS TODA LÁGRIMA

E LHES ENXUGARÁ DOS OLHOS TODA LÁGRIMA

R. C. Sproul¹

Como pastor e teólogo, tive que pensar em muitas questões difíceis ao longo dos anos. Verdade seja dita, no entanto, o problema mais difícil que enfrentei foi o problema do sofrimento. Todos nós enfrentamos o sofrimento de alguma forma e conhecemos pessoas que viveram vidas tão dolorosas que nos perguntamos como elas puderam prosseguir.

Longe de nós queremos minimizar ou negar a dor que o sofrimento traz. O cristianismo não é um sistema de negação estoica, no qual fingimos que está tudo bem mesmo quando estamos suportando as piores coisas. Ao mesmo tempo, não nos atrevemos a esquecer a esperança cristã de que um dia o sofrimento sumirá para sempre. Quando lidamos com o sofrimento, tendemos a fixar completamente nossa visão no presente, mas a resposta cristã ao sofrimento olha para além do presente, olhamos para o futuro, ao mesmo tempo em que tentamos, tanto quanto formos capazes, aliviar o sofrimento do presente.

A verdadeira essência do secularismo está na tese de que o “hic et nunc”, o aqui e agora, é tudo o que existe, não há reino do eterno. Entretanto, como cristãos, somos chamados a considerar o presente à luz do eterno. É isso que Jesus pregou repetidas vezes. Que aproveita ao homem se, nesse momento e lugar, ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua própria alma? (Lc 9.25).

A Escritura diz que o fim define o significado do começo (Ec 7.8). Somente Deus conhece, de forma abrangente, o fim desde o princípio, mas em sua Palavra Ele nos dá um vislumbre do fim para o qual estamos nos movendo, se pudermos concentrar nossa atenção no final, e não apenas no agora e na dor que experimentamos aqui, podemos começar a entender nossa dor na perspectiva correta.

Ao revelar o novo céu e a nova terra, Apocalipse 21–22 nos dá um dos vislumbres mais claros do futuro. Deixe-me tocar em alguns destes vislumbres.

“Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima”, (Ap 21.3-4). Quando eu era menino, minha vida era difícil. Havia um menino valentão em nossa comunidade que era muito maior do que eu. Às vezes, ele me batia e eu corria para casa chorando. Minha mãe, que estava na cozinha com seu avental, dizia: “venha aqui”. Eu entrava, ela se inclinava e enxugava com a barra do avental minhas lágrimas – uma das formas mais carinhosa de comunicação. Quando minha mãe enxugava minhas lágrimas, eu realmente me sentia confortado e era encorajado a voltar para a batalha. Então eu voltava, mas, mais cedo ou mais tarde, eu me machucava novamente, chorava de novo e minha mãe tinha que enxugar minhas lágrimas mais uma vez. Porém, quando Deus enxugar nossas lágrimas, elas nunca mais fluirão novamente, por toda a eternidade (a menos, claro, que sejam lágrimas de alegria).

Essa é a perspectiva eterna. Esse é o fim que resulta do início. Nesse momento nós vivemos no vale das lágrimas, mas essa situação não é permanente porque Deus enxugará nossas lágrimas.

João diz também: “a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto,” (v 4). Morte, tristeza, choro, dor, tudo isso pertence às coisas anteriores que passarão. Posso imaginar uma conversa que eu teria com você na Nova Jerusalém. Você diria: “Lembra-se de quando nos preocupávamos com o problema do sofrimento”? Então eu responderia: “Mal me lembro do que era isso”.

No versículo 22, lemos sobre outra coisa que não existirá na Nova Jerusalém. Lá, não somente não haverá mais tristeza ou morte como também não haverá templo. Mas como pode a nova Jerusalém ser a cidade santa sem um templo? Bem, o que João está dizendo é que não haverá um templo físico mas um outro tipo de templo. João diz: ” Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro”. O mais belo santuário terrestre neste mundo será algo ultrapassado na nova Jerusalém porque estaremos na presença de Deus e do Cordeiro.

“Nunca mais haverá qualquer maldição” (22.3). Você conhece aquela música “Joy to the World² ”? Eu amo a frase da música que termina com “até onde a maldição é encontrada”. Até que ponto é isso? Nessa escuridão presente, a maldição se estende até aos confins da terra, até nossas vidas, nossos trabalhos, nossos negócios, nossos relacionamentos. Todos sofrem sob as dores da maldição de um mundo caído e é por isso que há um anseio cósmico, onde toda a criação geme esperando pela manifestação dos filhos de Deus, esperando pelo momento em que a maldição será removida (Rm 8.19). Não haverá ervas daninhas nem joio na nova Jerusalém. A terra não oferecerá resistência aos nossos arados porque a maldição não será encontrada. “Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão” (Ap 22.3).

Portanto nós temos a maior esperança de todas, a mais formidável promessa do Novo Testamento: nós veremos a face de Deus (v 4). Por toda a nossa vida podemos nos aproximar do Senhor, podemos sentir a sua presença e conversar com ele, mas não podemos ver o seu rosto. Porém, se perseverarmos em meio a dor e o sofrimento deste mundo presente, a visão de Deus nos espera do outro lado. Você pode imaginar isso? Você pode imaginar-se olhando, por um segundo, para a glória desvendada de Deus? Isso fará com que cada dor que eu já tenha experimentado neste mundo valha a pena.

“Estas palavras são fiéis e verdadeiras” (v. 6): não são os remédios ou o ópio que vão atenuar nossa dor, mas a verdade do Deus Todo Poderoso, que nos fez e nos conhece, que pelo sofrimento de seu Filho redimiu seu povo. Ele agora garante que, se estamos em Cristo somente pela fé, estamos destinados à glória, e nada pode descarrilar esse trem. Essas coisas que nos causam tanto sofrimento passarão e ele fará nova todas as coisas.

FONTE: VoltemosaoEvangelho.com

¹ R. C. Sproul nasceu em 1939, no estado da Pensilvânia. Foi ministro presbiteriano, pastor da igreja St. Andrews Chapel, na Flórida. Foi fundador e presidente do ministério Ligonier, professor e palestrante em seminários e conferências, autor de mais de sessenta livros, vários deles publicados em português, e editor geral da Reformation Study Bible.

² “N.T.” A música, a qual o autor se refere, foi traduzida para o português e é mais conhecida por “Jesus Nasceu”. No entanto, a frase citada no texto se encontra em uma porção da música que não foi traduzida para o nosso idioma.

O SEGUNDO ADÃO

O SEGUNDO ADÃO

Dr. Guy Prentiss Waters¹

O apóstolo Paulo não acreditava que os seres humanos são basicamente pessoas boas que fazem coisas ruins. Os capítulos iniciais de sua epístola aos Romanos são dedicados à proposição de que, com exceção de Jesus Cristo, todo ser humano é por natureza injusto, culpado e merecedor de morte. “Todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado” conclui Paulo (Rm 3.9).

Esse retrato desolador e impiedoso da humanidade levanta ao menos duas questões: Por que é que não vemos exceções à depravação total universal? Existe qualquer esperança para pecadores que estão debaixo da justa condenação de Deus e que são incapazes de se livrarem do julgamento divino? Paulo responde ambas essas perguntas de forma inesperada em Romanos. Nossa difícil situação como pecadores pode ser traçada de volta até Adão. Nossa única esperança como pecadores está no segundo Adão, Jesus Cristo. Em Romanos 5.12–21, o apóstolo nos ajuda a enxergar como a obra de cada homem, Adão e Jesus, afeta os seres humanos hoje.

Em Romanos 5.14, Paulo diz que Adão “prefigurava aquele que havia de vir” isto é, Jesus Cristo. Como Jesus, Adão foi um ser humano histórico e de verdade. Embora Jesus não seja meramente um homem, ele é um homem de verdade. Paulo aqui afirma a correspondência entre Adão e Jesus. É em 1 Coríntios que o apóstolo fornece uma linguagem que nos ajuda a entender melhor a relação deles. Se Adão é “o primeiro homem,” então Jesus é “o último Adão” (1 Co 15.45). Adão é “o primeiro homem”; Jesus, “o segundo homem” (v. 47). Adão e Jesus são homens representantes. Ninguém fica entre o primeiro homem e o último Adão. E ninguém vem depois de Jesus, o segundo homem. Todo ser humano em toda época e lugar do mundo, Paulo nos conta, está em uma relação representativa ou com Adão ou com Jesus (ver vv. 47–48). É no contexto dessa relação que o que o representante fez se torna posse do representado.

Em Romanos 5, Paulo apresenta essas relações representativas sob o microscópio. O apóstolo quer que vejamos como é que a “uma ofensa” de Adão afeta todos os que estão em Adão. Ele faz isso para ajudar os crentes (aqueles que estão “em Cristo”) a enxergar como é que a obediência e morte de Cristo os afeta.

Alguns dos mais importantes termos que Paulo usa em Romanos 5.12–21 derivam do tribunal. Contra a “condenação” que pertence aos que estão em Adão está a “justificação” que pertence aos que estão em Cristo (vv. 16, 18). A palavra comumente traduzida como “feitos” no versículo 19 (“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos [κατεστάθησαν] pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos [κατασταθήσονται] justos” [ênfase do autor]) é mais precisamente traduzida como “designados”. O ponto de Paulo nesse versículo não é nem que o pecado de Adão nos transforma em indivíduos pessoalmente pecadores, nem que a obediência de Jesus nos transforma em indivíduos pessoalmente justos. O seu ponto aqui é que, à luz da desobediência de Adão, aqueles que Adão representa pertencem a uma nova categoria legal (pecador). De maneira similar, é por causa da obediência de Jesus que o seu povo tem permissão para entrar em uma nova categoria legal (justo).

O termo técnico teológico que descreve a transação envolvendo o representante e o representado é imputação. O um pecado de Adão é imputado (contabilizado, computado) a todos que ele representa. Como resultado dessa transação, todos os que estão “em Adão” entram em condenação. Quer dizer, eles são passíveis de justiça divina por conta do um pecado de Adão imputado a eles. Por outro lado, a justiça de Cristo é imputada a todos que ele representa. Como resultado dessa transação, todos que estão “em Cristo” são justificados. Deus os conta como justos, não por qualquer coisa que eles tenham feito, estão fazendo ou um dia farão. Deus justifica pecadores somente com base na perfeita obediência e completa satisfação de Cristo, que Deus imputa a eles e que eles recebem pela fé somente.

As duas imputações de Romanos 5.12–21 fornecem resposta às duas questões levantadas acima. A razão pela qual “não há justo, nem um sequer” (3.10) deriva do fato de que todos os seres humanos, exceto o segundo Adão, são por natureza condenados em Adão. Em conjunto com a condenação universal, Paulo nos mostra, está a depravação universal. É à luz da imputação do primeiro pecado de Adão aos seres humanos que essas pessoas culpadas, do momento de sua concepção, herdam a natureza caída de seus pais.

Por essas razões, não há esperança ou auxílio a ser encontrado nos que estão “em Adão”, nem também entre eles. Mas esperança e auxílio estão disponíveis para pecadores. Eles são encontrados somente em Jesus Cristo, o segundo e último Adão. Através da fé em Cristo somente, o pecador recebe a justiça de Cristo. Na base da sua justiça somente, o pecador é justificado. Seus pecados são perdoados e ele é contado como justo no tribunal de Deus. Unido a Cristo e justificado através da fé nele, o crente vem a ser transformado segundo a imagem de Cristo no poder do Espírito Santo.

Uma dificuldade que as pessoas têm expressado comumente em relação ao ensino de Paulo em Romanos 5.12–21 pode ser resumida na objeção, “Não é justo!” Muitos perguntam: “É realmente justo que Deus me castigue por algo que outra pessoa fez? Afinal, ninguém nunca me perguntou se eu queria ser representado por Adão. Como um Deus bom e justo poderia me condenar nesses termos?”

Essa objeção é séria e merece uma reflexão cuidadosa. Na verdade, a relação representativa que Deus instituiu entre Adão e os seres humanos destaca a bondade, soberania e justiça de Deus. A bondade de Deus é evidente na maneira como ele lida com Adão no jardim do Éden, e que se estende a cada pessoa que Adão representa. Deus criou Adão um homem justo. A forma de Adão pensar, escolher, sentir e seu comportamento eram todos sem pecado. Deus colocou Adão no paraíso e permitiu que ele aproveitasse sua generosidade. Deus ofereceu a Adão a promessa de vida eterna confirmada e exigiu dele apenas que se abstivesse, por um tempo, de comer de uma única árvore no jardim. É difícil conceber circunstâncias mais vantajosas para o nosso representante, Adão. Cada detalhe da aliança que Deus fez com Adão reflete a bondade de Deus. Teríamos nós como pecadores, que vivem entre pecadores em um mundo pecaminoso, qualquer esperança de prospectos melhores dos que Adão teve como nosso representante no jardim do Éden?

A relação representativa que Deus designou entre Adão e sua prole ordinária também dão testemunho da soberania e justiça de Deus.  Ambos, Adão e nós, somos criações das mãos de Deus. Deus tem o direito de comandar nossas vidas da forma como ele quiser, e nós não temos direito algum de cobrar dele uma prestação de contas (ver Rm. 9.19–20). Agindo como ele age, Deus não comete nenhuma injustiça a nós. Pelo contrário, ele age de acordo com seu caráter justo.

Devemos nos lembrar pelo menos de duas considerações adicionais e relacionadas ao pensarmos sobre a relação que Deus instituiu entre Adão e os seres humanos. Primeiro, Deus não instituiu tal relação entre os anjos. Cada anjo se encontra em uma posição individual perante Deus. Alguns anjos têm permanecido obedientes a Deus, enquanto outros anjos caíram em pecado. Deus não providenciou um mediador para esses anjos caídos, e ele não os oferece misericórdia salvadora. Tendo “[abandonado] o seu próprio domicílio,” eles estão “[guardados] sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia” (Judas 6).

Em segundo lugar, é através do mesmo tipo de relação representativa na qual nós, em Adão, caímos em pecado que Deus tem redimido pecadores caídos e indignos. Quando o pecador é unido a Jesus Cristo através da fé somente, ele passa de condenação para justificação e gratuitamente recebe a justiça de Jesus Cristo. O pecador não recebe esse presente de justiça por causa de nada que ele próprio tenha feito, está fazendo ou irá um dia fazer. Deus, pelo contrário, graciosamente imputa essa justiça ao pecador, que a recebe pela fé. E até essa fé é dom de Deus (Ef 2.8; Fp 1.29).

Por essa razão, nós como cristãos olhamos para a salvação que recebemos em Cristo e dizemos, “Não é justo!” Dizemos isso não com punhos cerrados de raiva e resistência, mas com a mão aberta de louvor e ação de graças. As boas-novas do evangelho são que Deus não nos deu o que merecemos. O que merecemos é condenação eterna. Mas Deus derramou nossos pecados em Jesus Cristo na cruz, e ele creditou a nós a justiça de seu Filho quando cremos (2 Co 5.21). Deus não nos deu o que é devido. Ele nos deu o que é devido a Cristo. Ele nos deu bênção no lugar de maldição, justificação no lugar de condenação, vida no lugar de morte e esperança no lugar de desespero. E ao fazer isso, mostrou-nos ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé no seu Filho (ver Rm 3.26).

No dia do julgamento, pecadores impenitentes não serão capazes de culpar ninguém além de si mesmos (2.1–11). Eles serão sentenciados e condenados justamente, e suas “bocas serão caladas” [4] (Rm 3.19). Nesse mesmo dia, nós como redimidos não nos orgulharemos em nós mesmos. Atribuiremos todo louvor e glória ao nosso Salvador, o segundo Adão, o Senhor Jesus Cristo.

Esse dia ainda não chegou. Até lá cristãos podem começar a louvar a Cristo em mente e corpo, em palavra e obra. E podemos apontar outros ao Deus que, sendo rico em misericórdia e abundante em amor, vivifica pecadores mortos juntamente com Cristo (Ef 2.4–5).

FONTE: VoltemosaoEvangelho.com

¹Dr. Guy Prentiss Waters é professor de Novo Testamento no Reformed Theological Seminary em Jackson, Mississippi. Ele é autor do livro How Jesus Runs the Church.

DEUS, A MELHOR PORÇÃO DO CRISTÃO

DEUS, A MELHOR PORÇÃO DO CRISTÃO

Jonathan Edwards

“Quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti.” (Salmos 73:25)

Neste salmo, o salmista Asafe relata a grande dificuldade que havia em sua mente ao observar os ímpios. Ele diz nos versículos 2 e 3: “Quanto a mim, porém, quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos. Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos”. No versículo 4, nos informa o que, nos ímpios, era o motivo de sua tentação. Em primeiro lugar, observa que eram prósperos e tudo lhes ia bem. Observa também o comportamento deles na prosperidade e o uso que faziam dela; e que Deus, apesar dos abusos, aumentava-lhes a prosperidade. Então, nos mostra de que maneira foi auxiliado nessa dificuldade, isto é, indo ao santuário (vv. 16-17), e procede para nos informar quais foram as considerações que o auxiliaram lá:

1. A consideração do fim miserável dos ímpios. Ainda que prosperem no presente, chegarão, contudo, a um lamentável fim (vv. 18-20).

2. A consideração do fim bendito dos santos. Embora esses enquanto vivem possam ser afligidos, contudo terão um fim feliz (vv. 21-24).

3. A consideração de que o justo possui uma porção muito superior à do ímpio, embora não possua outra porção senão Deus, como mostra o texto e os versículos seguintes.

Ainda que os ímpios vivam na prosperidade e não tenham problemas como os demais homens, contudo os piedosos, mesmo afligidos, estão em estado infinitamente melhor, porque têm Deus por sua porção. Não precisam desejar nada mais, pois quem tem Deus, tem tudo. Assim o salmista professa o senso e apreensão que teve das coisas: “Quem mais tenho eu no céu? E na terra não há quem eu deseje além de Ti” (Salmos 73:25)

No versículo imediatamente anterior (Salmos 73:24), o salmista observa como os santos são felizes em Deus, tanto quando estão neste mundo, como quando são levados ao outro. São benditos em Deus aqui, pois Ele os guia com os Seus conselhos; e quando os toma, ainda são felizes, pois Ele os recebe na glória. Provavelmente isso o levou, no texto, a declarar que não desejava outra porção quer neste mundo ou no porvir, quer no céu, quer na terra.

Daí aprendemos que:

Doutrina: É o espírito de um homem verdadeiramente piedoso preferir Deus antes de todas as coisas, quer no céu, quer na terra.

I. Um homem piedoso prefere Deus antes de todas as coisas no céu.

1. Ele prefere Deus antes de qualquer coisa que haja, de fato, no céu. Todo homem piedoso tem o Céu no coração. Suas afeições estão depositadas no que deve haver lá. O Céu é sua pátria e herança escolhidas. Ele tem respeito pelo Céu assim como um viajante, que está em terra distante, tem pelo seu país. O viajante pode contentar-se em estar em terra estranha por pouco tempo, mas sua própria terra nativa é preferida por ele acima de tudo (Hebreus 11:13): “Todos estes morreram na fé sem ter obtido as promessas; mas foram persuadidos delas e confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria”. O respeito que o justo tem pelo Céu pode ser comparado ao de uma criança, que está no estrangeiro, tem pela casa de seu pai. Ela pode estar satisfeita por pouco tempo, mas o lugar para onde deseja retornar e onde quer morar é sua própria casa. O Céu é a morada do Pai dos verdadeiros santos. João 14:2: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. João 20:17: “Subo para meu Pai e vosso Pai”.

Agora, a razão pela qual os piedosos têm desse modo o coração no Céu é porque Deus está lá — é o palácio do Altíssimo. É o lugar onde Deus está gloriosamente presente, onde Seu amor é gloriosamente manifesto, onde o piedoso pode estar com Ele, vê-lO como Ele é, e amá-lO, servi-lO, louvá-lO e gozá-lO perfeitamente. Se Deus e Cristo não estivessem no céu, eles não seriam tão ávidos em buscá-lo, nem suportariam tantas dores em uma laboriosa jornada através deste deserto, nem a consideração de que irão ao Céu após a morte serviria de conforto nos labores e aflições. Os mártires não suportariam sofrimentos cruéis de seus perseguidores com uma alegre perspectiva de irem ao céu, se lá não esperassem estar com Cristo, e regozijar-se com Deus. Não esqueceriam alegremente as suas posses terrenas, e todos os amigos mundanos, como milhares deles fizeram, vagando na pobreza e na rejeição, sendo indigentes, afligidos, atormentados, trocando sua herança terrena por uma celestial, não fosse sua esperança de estar com seu glorioso Redentor e com o Pai celeste. O coração do crente está no céu, porque o seu tesouro está lá.

2. O homem piedoso prefere Deus antes de qualquer coisa que possa haver no céu. Não apenas não há nada no Céu que rivalize na sua estima com Deus; mas nada há que ele possa conceber, nada que possivelmente esteja lá, que seja mais estimado ou desejado por ele do que Deus. Alguns supõem que há no Céu delícias bem diferentes daquelas que as Escrituras nos ensinam. Os muçulmanos, por exemplo, supõem que no Céu devem ser desfrutados todos os tipos de delícias e prazeres sensuais. Muitas coisas que Maomé inventou são das mais convenientes para as luxúrias e apetites carnais dos homens que se possa imaginar, e, com elas, lisonjeou seus seguidores. Mas os verdadeiros santos não conseguem imaginar algo mais adequado a suas inclinações e desejos do que o que está revelado na Palavra de Deus: um Céu de gozo do Deus glorioso e do Senhor Jesus Cristo. Lá, estarão livres de todos os seus pecados, e serão perfeitamente conformados a Deus, e passarão uma eternidade em exercícios exaltados de amor por Ele, e no usufruto do Seu amor. Se Deus não pudesse ser usufruído no céu, mas apenas vasta riqueza, imensos tesouros de prata e ouro, grande honra do tipo que os homens obtêm neste mundo, e uma plenitude dos maiores prazeres e delícias sensuais, nenhuma dessas coisas suplantaria a necessidade por Deus e por Cristo, nem a fruição deles no céu. Se este estivesse vazio de Deus, seria de fato um lugar solitário e melancólico. O piedoso está sensível que todas as diversões humanas não podem satisfazer a alma; e, portanto, nada o contentará senão Deus. Ofereça a ele o que for, se o privar de Deus, considerar-se-á miserável. Deus é o centro dos seus desejos e quando você afasta sua alma do seu centro, ela não terá descanso.

II. É a disposição natural de um homem piedoso preferir Deus a todas as coisas sobre a terra.

1. O santo prefere esse gozo de Deus, pelo qual espera no porvir, a qualquer coisa neste mundo. Não olha tanto para as coisas que são visíveis e temporais, mas para as invisíveis e eternas (1 Coríntios 4:18). O santo não desfruta senão um pouco de Deus neste mundo; não tem senão pouca intimidade com Deus, e goza um pouco das manifestações de Sua glória e amor divinos. Mas Deus prometeu lhe dar, no porvir, plena fruição. E estas promessas são mais preciosas para o santo que as mais preciosas joias terrenas. O evangelho contém maiores tesouros, em sua estima, que os cofres de príncipes ou as minas dos índios.

2. Os santos preferem o que pode ser obtido de Deus nesta vida a todas as coisas no mundo. Há grande diferença nas realizações espirituais presentes dos santos. Alguns atingem maior intimidade e comunhão com Deus e conformidade com Ele que outros. Mas as maiores realizações são ínfimas em comparação às futuras. Os santos são capazes de progredir nas realizações espirituais e sinceramente desejam estas realizações adicionais. Não contentes com os graus já alcançados, estão famintos e sedentos de justiça e, como crianças recém-nascidas, desejam o sincero leite da Palavra, para que, por ela, possam crescer. É seu desejo conhecer mais de Deus, ter mais de Sua imagem, e serem capacitados ainda mais à imitação de Deus e de Cristo em sua caminhada e conversação. Salmos 27:4: “Uma coisa peço ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR e meditar no seu templo”. Salmos 42:1-2: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face de Deus?” Salmos 63:1-2: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te busco intensamente; a minha alma tem sede de ti! Todo o meu ser anseia por ti, numa terra seca, exausta e sem água”. Veja também o Salmos 84:1-3 e Salmos 130:6: “A minha alma anseia pelo Senhor mais do que os guardas pelo romper da manhã. Eu digo, mais do que os guardas pelo romper da manhã”.

Ainda que nem todo santo tenha este ávido desejo por Deus no mesmo grau que tinha o salmista, contudo são do mesmo espírito; desejam sinceramente ter mais de Sua presença em seus corações. Que este é o temperamento do piedoso em geral e não apenas de alguns santos em particular, mostra-se em Isaías 26:8-9, onde se fala não de algum santo em particular, mas da igreja em geral o seguinte: “Também através dos teus juízos, SE-NHOR, te esperamos; no teu nome e na tua memória está o desejo da nossa alma. Com minha alma suspiro de noite por ti e, com o meu espírito dentro de mim, eu te procuro diligentemente; porque quando os teus juízos reinam na terra, os moradores do mundo aprendem justiça”. Veja também Cânticos 3:1-2; 5:6-8.

Os santos nem sempre estão nestes vívidos exercícios da graça: mas possuem tal espírito e têm o sensível exercício dele. Desejam Deus e as realizações Divinas mais do que todas as coisas terrenas; e buscam ser ricos em graça mais do que fazem para obter todas as riquezas. Desejam a honra que procede de Deus, mais do que a dos homens (João 5:44) e comunhão com Ele mais do que qualquer prazer terreno. São do mesmo espírito que o apóstolo expressa em Filipenses 3:8: “Sim, deveras considero tudo como perda por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo”.

3. O santo prefere o que já tem de Deus a qualquer coisa neste mundo. O que foi infundido no seu coração na conversão lhe é mais precioso que qualquer coisa que o mundo possa ofertar. As visões que, às vezes, lhe são concedidas da beleza e excelência de Deus, lhe são mais preciosas que todos os tesouros dos ímpios. Ele valoriza mais a relação de filho na qual está para com Deus, a união que há entre sua alma e Jesus Cristo, do que a maior dignidade terrena. Essa imagem de Deus que está estampada em sua alma, ele valoriza mais do que quaisquer ornamentos terrenos. Em sua estima, é melhor ser adornado com as graças do Espírito Santo de Deus do que brilhar em joias de ouro, e com as mais caras pérolas, ou ser admirado pela maior beleza exterior. Valoriza mais o manto da justiça de Cristo, que tem em sua própria alma, do que os mantos de príncipes. Prefere os prazeres e delícias espirituais que, às vezes, tem em Deus, muito mais que todos os prazeres do pecado. Salmos 84:10: “Pois um dia nos teus átrios vale mais que mil; prefiro estar à porta da casa do meu Deus, a permanecer nas tendas da perversidade”.

Desse modo, o santo prefere Deus a todas as coisas neste mundo, pois:

1. Prefere Deus a todas as coisas que possui no mundo. Prefere Deus a todos os gozos temporais. Salmos 16:5-6: “O SENHOR é a porção da minha herança e o meu cálice; tu és o arrimo da minha sorte. Caem-me as divisas em lugares amenos, é mui linda a minha herança”. Se for rico, o seu coração está principalmente nas riquezas celestiais. Prefere Deus a todos os amigos terrenos, e o favor Divino a qualquer respeito obtido de criaturas semelhantes. Embora, inadvertidamente, tenham lugar no seu coração, e lugar até demais; contudo reserva o trono para Deus. Lucas 14:26: “Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”.

2. Ele prefere Deus a qualquer prazer terreno do qual tenha perspectiva. Os filhos dos homens põem, comumente, sua confiança mais em alguma felicidade terrena que esperam e pela qual buscam, do que naquilo que têm em posse no presente. Mas um homem piedoso prefere Deus a todas as coisas que espera neste mundo. Ele pode, com efeito, pela prevalência da corrupção, deixar-se por um tempo se levar por algum divertimento; contudo, cairá novamente em si, não sendo este seu temperamento, uma vez que é outro o seu espírito.

3. É o espírito de um homem piedoso preferir Deus a qualquer gozo terreno que possa conceber. Prefere-o não apenas a qualquer coisa que possui, mas nada vê em posse de outras pessoas que seja tão estimável. Tivesse ele a maior prosperidade do mundo, ou pudesse satisfazer todos os seus desejos terrenos, ainda assim, valorizaria a porção que já tem em Deus incomparavelmente mais. Ele prefere Cristo aos reinos terrenos.

Aplicação

1. Portanto, podemos aprender que quaisquer que sejam as mudanças pelas quais passe o justo, ele é feliz. Isso porque Deus, que é imutável, é sua porção preferida. Embora enfrente perdas temporais, seja privado de muitas, sim, até mesmo de todas as alegrias transitórias, contudo Deus, a quem prefere acima de tudo, ainda permanece e não pode ser perdido. Enquanto está neste mundo mutável, cheio de problemas, é feliz, pois sua porção escolhida, sobre a qual constrói o fundamento de sua felicidade, está acima do mundo e acima de todas as mutações. E quando vai ao outro ainda é feliz, pois sua porção permanece. Pode ser privado de tudo, exceto de sua principal porção; sua herança permanece segura.

Pudessem os homens de mente carnal encontrar um modo de assegurar para si as alegrias terrenas, em que seus corações estão principalmente firmados, de forma que não pudessem ser perdidas nem diminuídas enquanto vivessem, como considerariam grande privilégio, ainda que outras coisas que estimam em menor grau estivessem sujeitas à mesma incerteza de agora! Por outro lado, esses prazeres terrenos nos quais os homens depositam principalmente seus corações, são, com frequência, transitórios. Mas como é grande a felicidade daqueles que escolheram a Fonte de todo bem, que O preferem a todas as coisas no Céu ou na terra e que jamais podem ser privados dEle por toda a eternidade!

2. Que todos à vista dessas coisas examinem e testem a si mesmos, se são santos ou não. Uma vez que o que foi exposto é o espírito dos santos, e lhes é peculiar, ninguém pode usar a linguagem do texto e dizer: “Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra”, senão os santos. A escolha de um homem é o que determina seu estado. O que escolhe Deus por sua porção e O prefere a todas as coisas é um homem piedoso, pois esse O escolhe e adora como Deus. Honrá-lO como Deus é respeitá-lO acima de todas as coisas; e se alguém O honra como o seu Deus, seu Deus Ele é; há uma união e relação de pacto entre esse homem e o verdadeiro Deus. Todo homem é à semelhança de seu Deus. Se quiser saber quem é o homem, se é piedoso ou não, questione-o sobre quem é o seu Deus. Se o verdadeiro Deus for aquele a quem tem supremo respeito, a quem considera acima de tudo, sem dúvidas, ele é um servo do Deus verdadeiro. Mas se o homem tem algo a mais pelo qual tem maior respeito do que a Jeová, então este homem não é piedoso.

Questionem-se, portanto, quanto a sua situação; vocês preferem Deus acima de todas as coisas? Às vezes, pode ser difícil a determinação satisfatória disso, pois o ímpio pode ser ludibriado por falsas afeições e o piedoso, baseado em débeis padrões, pode perder [a noção] destas coisas. Portanto, vocês devem fazer uma autoanálise quanto a esta matéria, de diversos modos; se não puderem falar plenamente sobre uma coisa, talvez possam em relação a outras:

1. Qual é o desejo principal que os faz querer ir ao Céu quando morrerem? É verdade que alguns não têm grande desejo de ir para o céu. Não se importam em ir para o inferno, mas se pudessem escapar dele, não teriam muita preocupação com o céu. Se este não for o seu caso, mas vocês acham que têm desejo de ir para o céu, então se questionem quanto ao porquê disso. É precipuamente por querer estar com Deus, ter comunhão com Ele, e ser conformado a Ele para que possam vê-lO, e desfrutá-lO lá? É esta a consideração que guarda seus corações, e desejos e expectativas em relação ao céu?

2. Se vocês pudessem evitar a morte, e tivessem livre escolha, escolheriam viver sempre neste mundo sem Deus, ao invés de, no tempo dele, partir do mundo a fim de estar com Ele? Se pudessem viver aqui em prosperidade terrena por toda a eternidade, mas destituídos da Sua presença e comunhão, não tendo relação espiritual entre Deus e suas almas, sendo vocês e Deus alienados uns dos outros para sempre, escolheriam isso ao invés de partir do mundo, a fim de habitar no Céu como filhos de Deus, aproveitando lá os privilégios gloriosos de filhos, em um amor santo e perfeito a Ele, e no Seu gozo por toda a eternidade?

3. Vocês preferem Cristo a todos os outros como o caminho para o céu? Aquele que escolhe verdadeiramente Deus, O prefere em cada pessoa da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo: o Pai, como seu Pai; o Filho como seu Salvador; o Espírito Santo como seu Santificador. Questionem-se, portanto, não apenas se escolheram o gozo de Deus no Céu como sua mais alta porção e felicidade, mas também se escolheram a Jesus Cristo antes de todas as coisas, como o caminho para o céu; e isso com um senso da excelência de Cristo, e do caminho da salvação por Ele, como sendo algo [que serve] para a glória de Cristo e da soberana graça. É o caminho da livre graça, pelo sangue e justiça do bendito e glorioso Redentor, o caminho mais excelente para a vida em sua estima? Isso acrescenta valor para a herança celestial que é desta forma conferida? Isso é muito melhor para vocês que ser salvo por suas próprias justiças, por quaisquer de suas realizações, ou por qualquer outro mediador?

4. Se pudessem ir para o Céu da maneira que lhes agradasse, vocês prefeririam a todos os outros o caminho do estrito andar com Deus? Os que preferem Deus da maneira como foi representado escolhem-nO não apenas no fim, mas no meio. Preferem estar com Deus a qualquer outro, não apenas quando chegam ao fim de sua jornada, mas também enquanto estão na sua peregrinação. Preferem andar com Deus, embora seja caminho de labor, e cuidado, e auto renúncia ao invés do caminho do pecado, embora este seja caminho de ociosidade e gratificação das luxúrias.

5. Se vocês pudessem passar a eternidade neste mundo, escolheriam antes viver em circunstâncias humildes e rebaixadas, tendo a graciosa presença de Deus, a viver para sempre na prosperidade sem Ele? Prefeririam gastá-la no santo viver, servindo e andando com Deus e no gozo dos privilégios de seus filhos? Deus, com frequência, se manifestando a vocês como Pai, revelando-lhes a Sua glória, manifestando Seu amor e levantando a luz do Seu rosto sobre vocês! Escolheriam antes essas coisas, embora em pobreza, a abundar nas coisas mundanas, vivendo na opulência e prosperidade, e, ao mesmo tempo, sendo um estranho à aliança de Israel? Poderiam se satisfazer em não estar em relação filial com Deus, não gozar de gracioso relacionamento com Ele, não tendo direito algum de serem reconhecidos como filhos? Ou tal vida, mesmo que com enorme prosperidade terrena, seria por vocês estimada como miserável?

Se, apesar de tudo, vocês permanecerem em dúvida, e com dificuldade em determinar se preferem verdadeira e sinceramente Deus a todas as outras coisas, mencionarei duas coisas que são os modos mais certos de determinar-se nesta matéria, e que parecem ser as melhores bases de satisfação nela.

1. O sentimento de algum particular, forte e vívido exercício de tal espírito. Uma pessoa pode ter tal espírito que é referido na doutrina, e ter o exercício dele em um grau inferior, e ainda assim permanecer em dúvida quanto a tê-lo ou não, e ser incapaz de chegar a uma determinação satisfatória. Mas Deus se agrada de, às vezes, dar descobertas de Sua glória, e da excelência de Cristo, a fim de impelir o coração, para que saibam além de toda dúvida, que sentem o mesmo espírito referido por Paulo quando disse que considerava todas as coisas como perda por causa da excelência de Cristo Jesus, seu Senhor, e possam dizer tão ousadamente como ele, e como o salmista, no texto: “Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra”.

Em tais tempos o povo de Deus não precisa da ajuda de ministros para satisfazê-los quanto a terem o verdadeiro amor de Deus, pois claramente o veem e sentem; e o Espírito de Deus então testemunha com seus espíritos que são filhos de Deus. Portanto, se vocês estiverem satisfeitos a este ponto, e honestamente buscam tais realizações; busquem para que possam ter claros e vívidos exercícios deste espírito. Para este fim, devem se esforçar para crescer em graça. Embora tenham tido tais experiências no passado, e elas os satisfizeram então, contudo, vocês podem novamente entrar em dúvidas. Devem, portanto, buscar para que elas sejam mais frequentes, e o caminho nessa direção é sinceramente seguir adiante, para que tenham mais intimidade com Deus, e tenham os princípios da graça fortalecidos. Este é o caminho para fortalecer os exercícios da graça, vivificá-los, e torná-los mais frequentes, e assim serem satisfeitos em ter um espírito de amor supremo a Deus.

2. O outro caminho é inquirir se vocês preferem Deus a todas as coisas na prática, isto é, quando têm a ocasião de manifestar pela sua prática aquilo que vocês preferem, quando podem se apegar a um ou a outro, e devem esquecer-se de uma ou outra coisa, ou de Deus, se então for seu costume na prática preferirem Deus a todas as outras coisas, sejam elas quais forem, mesmo aquelas terrenas as quais seus corações estão mais ligados. Suas vidas são apegadas a Deus e O servem deste modo?

O que prefere sinceramente Deus à todas as outras coisas em seu coração, o fará na sua prática. Pois quando Deus e todas as outras coisas vierem a competir, esse é o teste apropriado para saber o que um homem prefere; e a maneira de agir em tais casos deve certamente determinar qual deve ser a escolha em todos os agentes livres, ou aqueles que agem em escolha. Portanto, não há sinal de sinceridade mais insistido na Bíblia que este: que enguemos a nós mesmos, vendamos tudo, esqueçamos o mundo, tomemos a cruz, e sigamos Cristo aonde quer que Ele vá. Portanto, corram dessa maneira, não na incerteza; assim lutem, não como quem desfere socos ao ar; mas esmurrem seus corpos e os reduzam à escravidão. E ajam não como se houvessem atingido a perfeição; mas fazendo uma coisa: “Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. E 2 Pedro 1.5: “Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo”.

FONTE: O Estandarte de Cristo – clique aqui

Jonathan Edwards (1703 – 1758) foi um pastor congregacional, teólogo calvinista e um dos maiores filósofos cristãos da história. Para saber mais sobre sua biografia, clique aqui.

QUEREMOS UMA IGREJA SANTA

QUEREMOS UMA IGREJA SANTA

Rev. Hernandes Dias Lopes

Santidade é uma das marcas da verdadeira igreja. Todo aquele que é salvo por Cristo Jesus é santo, ou seja, separado do mundo para Deus. Agora, pela redenção, tornamo-nos propriedade exclusiva de Deus, não pertencemos a nós mesmos. Ser separado do mundo e diferente dele para consagrarmo-nos a Deus não se constitui para nós um peso, mas aí está nosso maior deleite. Essa santidade não é a imposição de regras e mais regras, preceitos e mais preceitos, tornando a vida cristã um fardo. Ao contrário, a santificação é uma ação eficaz do Espírito Santo em nós, transformando-nos de glória em glória na imagem de Cristo. Aquilo que para nós era lucro tornou-se pura perda por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo. Andar com Deus é nossa maior alegria e nosso supremo prazer.

A Bíblia diz que sem santificação ninguém verá o Senhor. Diz também que a santificação é a vontade de Deus para nós. Deus é santo e seus filhos, que são co-participantes da natureza divina, devem também ser santos. Não há comunhão com Deus e com o pecado ao mesmo tempo. A vida no pecado nos afastará de Deus ou a comunhão com Deus nos afastará do pecado. Fomos salvos do pecado e não no pecado. Aquele que tem prazer no pecado, ainda não conhece a Deus, porque ele é a fonte da vida e na presença dele há plenitude de alegria. Santidade não é um corolário de regras religiosas impostas como fardo sobre as pessoas. A piedade não é algo exterior. Os fariseus arrotavam uma santidade externa, mas estavam cheios de impureza. Jesus os comparou como sepulcros caiados. Eles eram observadores da lei aos olhos dos homens e transgressores dela aos olhos de Deus. Devemos nos acautelar sobre o perigo de uma vida espiritual bonita aos olhos dos homens e adoecida aos olhos de Deus. A verdadeira santidade procede de um relacionamento íntimo com Deus. Não nos santificamos, somos santificados. Jesus é a nossa santificação (1 Co 1.30).

A santificação não apenas marca nossa comunhão com Deus, mas também é uma condição fundamental para a operação de Deus em nós e através de nós. O grande líder Josué disse ao povo de Israel antes de atravessar o Rio Jordão: “Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós” (Js 3.5). Deus é santo e busca homens santos para a realização da sua obra. Onde prevalece o pecado, o braço de Deus é encolhido. Israel caiu diante da pequena cidade de Aí, porque havia pecado no meio do arraial. Quando o povo de Deus amarga derrotas, não é por causa da força do inimigo, mas por causa do seu próprio pecado. O pecado é maligníssimo aos olhos de Deus. Nosso trabalho será em vão se o realizamos sem vida santa. Deus não se agrada do trabalho sem vida, da realização sem santidade. A força de uma igreja está não na beleza de seu templo, na quantidade de seus membros, ou mesmo na influência que eles exercem na sociedade, mas na excelência da sua vida de santidade. A igreja de Esmirna era pobre aos olhos dos homens, mas rica diante de Deus. A igreja de Laodicéia, porém mesmo sendo rica e abastada diante dos homens, era miserável aos olhos daquele que tudo sonda.

O jovem presbiteriano escocês, Robert Murray McCheyne, que morreu aos vinte e nove anos de idade, e que experimentou uma qualidade superlativa de vida em Cristo, disse que um crente santo é uma poderosa arma nas mãos de Deus. Você tem sido esse tipo de crente? Você está acomodado a um religiosismo frio e sem vitalidade espiritual? Está satisfeito com gotas enquanto Deus tem para você rios de água viva? Oh que nossa alma se desperte para cantarmos com Sarah Poulton Kalley:

Maravilhas soberanas, outros povos têm

Oh concede as mesmas bênçãos sobre nós também!

Santo Espírito, ouve com favor

Em poder e graça insigne

Mostra o teu favor!

Fonte: Hernandes Dias Lopes

OS SACRAMENTOS EM GERAL

Os Sacramentos em Geral

Por Dr. Louis Berkhof

A. Relação Entre a Palavra e os Sacramentos.

Em distinção da Igreja Católica Romana, as igrejas da Reforma salientam a prioridade da Palavra de Deus. Enquanto aquela parte do pressupostos de que os sacramentos contêm tudo que é necessário para a salvação dos pecadores, não precisam de interpretação e, portanto, tornam a Palavra completamente supérflua como meio de graça, estas consideram a Palavra como absolutamente essencial, e apenas levantam a questão, por que se lhe deve acrescentar os sacramentos. Alguns luteranos alegam que uma graça específica, diferente da que é produzida pela Palavra é transmitida pelos sacramentos. Isso é quase universalmente negado pelos reformados (calvinistas), uns poucos teólogos escoceses e o doutor Kuyper formando exceções à regra. Eles assinalam o fato de que Deus criou o homem de tal maneira, que ele obtém conhecimento particularmente pelas avenidas dos sentidos da visão e da audição. A Palavra está adaptada aos ouvidos e os sacramentos aos olhos. E, desde que os olhos são mais sensíveis que os ouvidos, pode-se dizer que Deus, ao acrescentar os sacramentos à Palavra, vem em auxílio do pecador. A verdade dirigida aos ouvidos através da Palavra está representada simbolicamente nos sacramentos para os olhos. Deve-se ter em mente, porém, que, enquanto a Palavra pode existir e também é completa sem os sacramentos, os sacramentos nunca são completos sem a Palavra. Há pontos de semelhança e de diferença entre a Palavra e os sacramentos.

1. PONTOS DE SEMELHANÇA. Eles concordam: (a) no autor, visto que Deus mesmo instituiu ambos como meio de graça; (b) no conteúdo, pois Cristo é o conteúdo central tanto da Palavra como dos sacramentos; e (c) na maneira pela qual o conteúdo é assimilado, isto é, pela fé. Esta constitui o único modo pelo qual o pecador pode tornar-se participante da graça oferecida na Palavra e nos sacramentos.

2. PONTOS DE DIFERENÇA. Eles diferem: (a) em sua necessidade, sendo que a Palavra é indispensável, ao passo que os sacramentos não; (b) em seu propósito, desde que a Palavra visa a gerar e a fortalecer a fé, enquanto que os sacramentos servem somente para fortalecê-la; e (c) em sua extensão, visto que a Palavra vai pelo mundo inteiro, ao passo que os sacramentos só são ministrados aos que estão na igreja.

B. Origem e Sentido da Palavra “Sacramento”.

A palavra “sacramento” não se encontra na Escritura. É derivada do termo latino sacramentum, que originariamente denotava uma soma de dinheiro depositada por duas partes em litígio. Após a decisão da corte, o dinheiro da parte vencedora era devolvido, enquanto que a da perdedora era confiscada. Ao que parece, isto era chamado sacramentum porque objetivava ser uma espécie de oferenda propiciatória aos deuses. A transição para o uso cristão do termo deve ser procurada: (a) no uso militar do termo, em que denotava o juramento pelo qual um soldado prometia solenemente obediência ao seu comandante, visto que no batismo o cristão promete obediência ao seu Senhor; e (b) no sentido especificamente religioso que o termo adquiriu quando a Vulgata o empregou para traduzir o grego mysterion. É possível que este vocábulo grego fosse aplicado aos sacramentos por terem eles uma tênue semelhança com alguns dos mistérios das religiões gregas. Na Igreja Primitiva a palavra “sacramento” era empregada primeiramente para denotar todas as espécies de doutrinas e ordenanças. Por esta mesma razão, alguns se opuseram ao nome e preferiam falar em “sinais” ou “mistérios”. Mesmo durante e imediatamente após a Reforma, muitos não gostavam do nome “sacramento”. Melanchton empregava “signi” , e tanto Lutero como Calvino achavam necessário chamar a atenção para o fato de que a palavra “sacramento” não é empregada em seu sentido original na teologia. Mas o fato de que a palavra não se encontra na Escritura e de que não é utilizada em seu sentido original quando aplicada às ordenanças instituídas por Jesus, não tem por que dissuadir-nos, pois muitas vezes o uso determina o sentido de uma palavra. Pode-se dar a seguinte definição de sacramento: Sacramento é uma santa ordenança instituída por Cristo, na qual, mediante sinais perceptíveis, a graça de Deus em Cristo e os benefícios da aliança da graça são representados, selados e aplicados aos crentes, e estes, por sua vez, expressam sua fé e sua fidelidade a Deus.

C. Partes Componentes do Sacramento.

Devemos distinguir três partes nos sacramentos.

1. O SINAL EXTERNO OU VISÍVEL. Cada sacramento contém um elemento material, palpável aos sentidos. Num sentido bem livre, este elemento às vezes é chamado sacramento. Contudo, no sentido estrito da palavra, o termo é mais inclusivo e denota o sinal e aquilo que é significado ou simbolizado. Para evitar mal-entendido, deve-se ter em mente este uso diferente. Isto explica por que se pode dizer que um descrente pode receber, e, todavia, não receber o sacramento. Não o recebe no sentido pelo da palavra. O objeto externo do sacramento inclui, não somente os elementos que se usam, a saber, água, pão e vinho, mas também o rito sagrado, aquilo que se faz com estes elementos. Segundo este ponto de vista externo, a Bíblia denomina os sacramentos sinais e selos, Gn 9.12, 13; 17.11; Rm 4.11.

2. A GRAÇA ESPIRITUAL INTERNA, SIGNIFICADA E SELADA. Os sinais e selos pressupõem algo que é significado e selado e que geralmente é chamado matéria interna do sacramento. Esta é variadamente indicada na Escritura como aliança da graça, Gn 9.12, 13; 17.11, justiça da fé, Rm 4.11, perdão dos pecados, Mc 1.4: Mt 26.28, fé e conversão, Mc 1.4; 16.16, comunhão com Cristo em Sua morte e ressurreição, Rm 6.3, e assim por diante. Declarada resumidamente, pode-se dizer que consiste de Cristo e todas as Suas riquezas espirituais. Os católicos romanos a vêem na graça santificante acrescentada à natureza humana, capacitando o homem a praticar boas obras e a subir às alturas da visio Dei (visão de Deus). Os sacramentos não significam meramente uma verdade geral, mas uma promessa dada a nós e por nós aceita, e servem para fortalecer a nossa fé com respeito à realização dessa promessa, Gn 17.1-14; Ex 12.13; Rm 4.11-13. eles representam visivelmente e aprofundam a nossa consciência das bênçãos espirituais da aliança, da purificação dos nossos pecados e da nossa participação na vida que há em Cristo, Mt 13.11; Mc 1.4, 5; 1 Co 10.2, 3, 16, 17; Rm 2.28, 29; 6.3, 4; Gl 3.27. como sinais e selos, eles são meios de graça, isto é, meios pelos quais se fortalece a graça interna produzida no coração pelo Espírito Santo.

3. UNIÃO SACRAMENTAL ENTRE O SINAL E QUILO QUE É SIGNIFICADO. Geralmente se lhe chama forma sacramenti, forma dos sacramentos ( forma significando aqui essência), porque é exatamente a relação entre o sinal e a coisa significada que constitui a essência do sacramento. Segundo o conceito reformado (calvinista), esta (a) não é física , como pretendem os católicos romanos, como se a coisa significada fosse inerente ao sinal e o recebimento da matéria externa incluísse necessariamente a participação na matéria interna ; (b) nem local, como a descrevem os luteranos, como se o sinal e a coisa significada estivessem presentes no mesmo espaço, de sorte que tanto os crentes como os incrédulos recebessem o sacramento completo ao receberem o sinal; (c) mas espiritual , ou como o expressa Turretino, moral e relativa , de modo que, quando o sacramento é recebido com fé, a graça de Deus o acompanha. Conforme este conceito, o sinal externo torna-se um meio empregado pelo Espírito Santo na comunicação da graça divina. A estreita relação existente entre o sinal e a coisa significada explica o emprego daquilo que geralmente se chama “linguagem sacramental”, na qual o sinal é mencionado em lugar da coisa significada, ou vice-versa , Gn 17.10; At 22.16; 1 Co 5.7.

D. Necessidade dos Sacramentos.

Os católicos romanos afirmam que o batismo é absolutamente necessário para todos, para a salvação, e que o sacramento da penitência é igualmente necessário para aqueles que cometeram pecado mortal depois do batismo; mas que a confirmação, a eucaristia e a extrema unção são necessárias somente no sentido de que foram ordenadas e são eminentemente úteis. Por outro lado, os protestantes ensinam que os sacramentos não são absolutamente necessários para a salvação, mas são obrigatórios em vista do preceito divino. A negligência voluntária do seu uso redunda no empobrecimento espiritual e tem tendência destrutiva, precisamente como acontece com toda desobediência persistente a Deus. Que não são absolutamente necessários para a salvação, segue-se: (1) do caráter espiritual e livre da dispensação do Evangelho, na qual Deus não prende a Sua graça ao uso de certas formas externas, Jo 4.21, 23; Lc 18.14; (2) do fato de que a Escritura menciona unicamente a fé como condição instrumental da salvação, Jo 5.24; 6.29; 3.36; At 16.31; (3) do fato de que os sacramentos não originam a fé, mas a pressupõem, e são ministrados onde se supõe a existência da fé, At 2.41; 16.14, 15, 30, 33; 1 Co 11.23-32; e (4) do fato de que muitos foram realmente salvos sem o uso dos sacramentos. Pensemos nos crentes anteriores ao tempo de Abraão e no ladrão penitente na cruz.

E. Os Sacramentos do Velho e do Novo Testamentos Comparados.

1. SUA UNIDADE ESSENCIAL. Roma alega que há diferença essencial entre os sacramentos do Velho Testamento e os do Novo. Ela afirma que, à semelhança de todo o ritual da antiga aliança, seus sacramentos também eram meramente típicos. A santificação produzida por eles não era interna, mas apenas legal, e prefigurava a graça que haveria de ser conferida ao homem no futuro, em virtude da paixão de Cristo. Isso não significa que nenhuma graça interna acompanhava o uso deles, mas simplesmente que isso não era efetuado pelo sacramento propriamente ditos, como acontece na nova dispensação. Eles não tinham eficácia objetiva, não santificavam o participante ex opere operato, mas unicamente ex opere operantis, isto é, por causa da fé e caridade com que eram recebidos. Uma vez que a plena concretização da graça tipificada por aqueles sacramentos dependia da vinda de Cristo, os santos do Velho Testamento foram encerrados no Limbus Patrum (Limbo dos Pais) até Cristo os tirar de lá. A verdade, porém, é que não há diferença entre os sacramentos do Velho Testamento e os do Novo. Provam-no as seguintes considerações; (a) em 1 Co 10.1-4 Paulo atribui à igreja do Velho Testamento aquilo que é essencial nos sacramentos do Novo testamento; (b) em Rm 4.11 ele fala da circuncisão de Abraão como selo da justiça da fé; e (c) em vista do fato de que eles representam as mesmas realidades espirituais, os nomes dos sacramentos de ambas as dispensações são utilizados uns pelos outros: a circuncisão e a páscoa são atribuídas à igreja do Novo Testamento, 1 Co 5.7; Cl 2.11, e o batismo e a Ceia do Senhor à igreja do Velho Testamento, 1 Co 10.1-4.

2. SUAS DIFERENÇAS FORMAIS. Não obstante a unidade essencial dos sacramentos das duas dispensações, há certos pontos de diferença. (a) Em Israel os sacramentos tinham um aspecto nacional em acréscimo à sua significação espiritual como sinais e selos da aliança grega. (b) Ao lado dos sacramentos, Israel tinha muitos outros ritos simbólicos, tais como as ofertas e as purificações, que no essencial concordavam com os seus sacramentos, ao passo que os sacramentos do Novo Testamento estão absolutamente sós. (c) Os sacramentos do Velho Testamento apontavam para Cristo no futuro, e eram os selos da graça que ainda teriam que ser merecidas, ao passo que os do Novo testamento apontam para Cristo no passado e o Seu sacrifício de redenção já consumado. (d) Em harmonia com o conteúdo total da dispensação do Velho Testamento, a porção da graça divina que acompanhava o uso dos sacramentos do Velho Testamento era menor do que a que atualmente se obtém mediante o confiante recebimento dos sacramentos do Novo Testamento.

F. Número dos Sacramentos.

1. NO VELHO TESTAMENTO. Durante a antiga dispensação havia dois sacramentos, quais sejam, a circuncisão e a páscoa. Alguns teólogos reformados (calvinistas) eram de opinião que a circuncisão originou-se em Israel e foi auferido deste povo da aliança por outras nações. Mas agora é patentemente claro que esta posição é insustentável. Desde os tempos mais primitivos, os sacerdotes egípcios eram circuncidados. Além disso, a prática da circuncisão se acha em muitos povos da Ásia, da África e até da Austrália, e é muito improvável que todos a tenham derivado de Israel. Todavia, somente em Israel ela se tornou um sacramento da aliança da graça. Como pertencente à dispensação do Velho Testamento, era um sacrifício cruento, simbolizando a excisão da culpa e da corrupção do pecado, e constrangendo as pessoas a deixarem que o princípio da graça de Deus penetrasse suas vidas completamente. A páscoa também era um sacrifício cruento. Os israelitas escaparam do destino dos egípcios com sua substituição por um sacrifício, que foi um tipo de Cristo, Jo 1.29, 36; 1 Co 5.7. A família salva comeu o cordeiro que fora imolado, simbolizando assim um ato assimilativo de fé, muito parecido com o ato de comer o pão na Ceia do Senhor.

2. NO NOVO TESTAMENTO. A igreja do Novo Testamento também tem dois sacramentos a saber, o batismo e a Ceia do Senhor. Em harmonia com a nova dispensação em seu conjunto global, eles são sacramentos incruentos. Contudo, simbolizam as mesmas bênçãos espirituais que eram simbolizadas pela circuncisão e pela páscoa na antiga dispensação. A igreja de Roma aumentou para sete o número dos sacramentos de maneira totalmente infundada. Aos dois que foram instituídos por Cristo ela acrescentou a confirmação, a penitência, a ordenação, o matrimônio e a extrema unção. Ela procura base bíblica para a confirmação em At 8.17; 14.22; 19.6; Hb 6.2; para a penitência em Tg 5.16; para a ordenação em 1 Tm 4.14; 2 Tm 1.6; para o matrimônio em Ef 5.32; e para a extrema unção em Mc 6.13; Tg 5.14. Pressupõe-se que cada um destes sacramentos comunica, em acréscimo à graça geral da santificação, uma graça sacramental especial, diferente em cada sacramento. Esta multiplicação dos sacramentos criou uma dificuldade para a igreja de Roma. Geralmente se admite que, para serem válidos, precisam ter sido instituídos por Cristo; mas Cristo instituiu apenas dois. Consequentemente, ou os outros não são sacramentos, ou o direito de instituí-los terá que ser atribuído aos apóstolos também. Na verdade, antes do Concílio de Trento, muitos asseveravam que os cinco adicionais não foram instituídos diretamente por Cristo, mas por meio dos apóstolos. Todavia, aquele concílio declarou ousadamente que todos os sete sacramentos foram instituídos pessoalmente por Cristo, e, desse modo, impôs à teologia da sua igreja uma tarefa impossível. É um ponto que tem que ser aceito pelos católicos romanos com base no testemunho da igreja, mas que não de vê ser comprovado.

Fonte: Site Monergismo.com clique aqui; como primária Teologia Sistemática escrita pelo autor, publicado pela Ed. Cultura Cristã.

O QUE É PROVIDÊNCIA?

O que é Providência?

R. C. Sproul

Um dia, enquanto eu assistia a um programa de notícias, apareceu um anúncio sobre uma série de livros a respeito de problemas da vida no passado. Uma das imagens do comercial mostrava um soldado confederado, da Guerra Civil, deitado numa maca, recebendo cuidados de uma enfermeira e de um médico da linha de batalha. Em seguida, o narrador me informou que a leitura daquele livro me ajudaria a entender o que significava ficar doente, em meados do século XIX. Aquilo atraiu minha atenção, porque muitas pessoas do século XXI são tão fortemente presas ao seu tempo, que raramente pensam em como as pessoas levavam a vida em épocas e gerações anteriores.

Esta é uma das áreas em que me vejo fora de harmonia com os meus contemporâneos. Penso, com muita frequência, na vida das gerações anteriores, porque tenho o hábito de ler obras escritas por pessoas que, em muitos casos, viveram muito antes do século XXI. Gosto de ler, especialmente, autores dos séculos XVI, XVII e XVIII.

Nos escritos desses autores, constantemente, observo um senso agudo da presença de Deus. Esses homens tinham um senso de uma providência que envolvia tudo. Vemos uma indicação deste senso de que toda a vida está sob a direção e o governo do Deus todo-poderoso, no fato de que uma das primeiras cidades, no que é agora os Estados Unidos da América, foi Providence, em Rhode Island, fundada em 1636. De modo semelhante, a correspondência pessoal de homens de séculos anteriores, como Benjamim Franklin e John Adams, é entremeada com a palavra providência. As pessoas falavam sobre uma “Providência benevolente” ou uma “Providência irada”, mas havia, frequentemente, um senso de que Deus estava envolvido de maneira direta na vida diária das pessoas.

A situação é muito diferente em nossos dias. Meu falecido amigo James Montgomery Boice costumava contar uma história engraçada, que ilustrava apropriadamente a mentalidade contemporânea com respeito a Deus e ao seu envolvimento no mundo. Houve um alpinista que escorregou numa saliência e estava prestes a mergulhar centenas de metros para a sua morte, mas, enquanto caía, ele se agarrou num galho de uma árvore minúscula e desajeitada que crescia numa fresta, na face do despenhadeiro. Quando ele se agarrou no galho, as raízes da árvore começaram a afrouxar, e o alpinista contemplava a morte certa. Naquele momento, ele clamou aos céus: “Há alguém aí em cima, que possa me ajudar?” Em resposta ele ouviu uma voz forte, do céu, que dizia: “Sim, eu estou aqui e posso ajudá-lo. Solte o galho e confie em mim”. O homem olhou para o céu e, em seguida, olhou para baixo, para o abismo. Por fim, ele levantou a voz novamente e disse: “Há alguém mais por aí que possa me ajudar?”

Gosto dessa história, porque ela tipifica a mentalidade cultural de nossos dias. Primeiramente, o alpinista pergunta: “Há alguém aí em cima?” A maioria das pessoas do século XVIII admitiam que havia Alguém lá. Em sua mente, havia pouca dúvida de que um Criador todo-poderoso governava os afazeres do universo. Entretanto, vivemos numa época de incredulidade sem precedente, quanto à própria existência de Deus. Sim, pesquisas de opinião pública nos dizem, regularmente, que entre 98% e 99% das pessoas nos Estados Unidos creem em algum tipo de deus ou poder superior. Suponho que isso pode ser explicado, em parte, pelo impacto da tradição; ideias que têm sido preciosas para as pessoas, durante várias gerações, são difíceis de serem renunciadas, e, em nossa cultura, certo estigma social ainda está vinculado ao ateísmo irrestrito. Além disso, acho que não podemos escapar da lógica de supor que tem de haver algum tipo de causa fundamental e última para este mundo, à medida que o experimentamos. Todavia, quando confrontamos as pessoas e falamos com elas sobre a sua ideia de um “poder superior” ou de um “ser supremo”, fica evidente que se referem a um conceito neutro – um tipo de energia ou uma força indefinida – e não a Deus. Essa foi a razão por que o alpinista perguntou: “Há alguém aí em cima?” Naquele momento de crise, ele reconheceu sua necessidade de um ser pessoal, que estava no controle do universo.

Há outro aspecto dessa anedota que considero importante. Quando o alpinista estava prestes a cair na morte, ele não disse apenas: “Há alguém aí em cima?” Ele especificou: “Há alguém aí em cima, que possa me ajudar?” Esta é a pergunta do homem moderno. Ele quer saber se há alguém, fora da esfera da vida diária, que é capaz de lhe prestar assistência. Mas eu acho que o alpinista estava fazendo uma pergunta muito mais fundamental. Ele queria saber, não somente se havia alguém que poderia ajudá-lo, mas também se havia alguém que estava disposto a ajudá-lo. Esta é a pergunta que está em primeiro lugar, na mente dos homens e das mulheres contemporâneos. Em outras palavras, eles querem saber não somente se há providência, mas também se ela é fria, insensível ou compassiva.

Portanto, a questão referente à providência que pretendo considerar nestes artigos é, não meramente, se há alguém lá, mas se esse alguém é capaz e disposto a fazer alguma coisa no mundo em que vivemos.

Um universo mecânico e fechado

Entre as ideias que têm moldado a cultura ocidental, uma das mais significativas é a ideia de um universo mecânico e fechado. Esta opinião sobre o mundo tem persistido por centenas de anos, e exercido influência tremenda em moldar a maneira como as pessoas entendem a forma como a vida é vivida. Eu diria que, no mundo secular, a ideia predominante é a de que vivemos num universo que é fechado para qualquer tipo de intrusão de fora, um universo que funciona puramente por forças e causas mecânicas. Em palavras simples, a questão crucial para o homem moderno é a causalidade.

Parece haver um clamor crescente sobre a influência negativa da religião na cultura americana. Afirma-se que a religião é a força que mantém as pessoas presas na era das trevas de superstição, mantém a sua mente fechada para qualquer entendimento das realidades do mundo que a ciência tem descoberto. Cada vez mais, a religião parece ser considerada o polo oposto da ciência e da razão. É como se a ciência fosse algo para a mente, a pesquisa e a inteligência, enquanto a religião fosse algo para as emoções e os sentimentos.

Apesar disso, ainda há uma tolerância para a religião. A ideia frequentemente expressa, nos meios de comunicação noticiosos, é que todos têm um direito de crer no que escolhe crer; o mais importante é crer em algo. Não importa se você é judeu, mulçumano, budista ou cristão.

Quando ouço comentários como esse, quero exclamar: a verdade é realmente importante? Em minha humilde opinião, a coisa principal é crer na verdade. Não estou satisfeito em crer, simplesmente por crer. Se aquilo em que creio não é verdadeiro – se é supersticioso ou falácia – quero ser libertado disso. Mas a mentalidade de nossos dias parece ser a de que, nas questões de religião, a verdade é insignificante. Aprendemos a verdade da ciência e obtemos bons sentimentos da religião.

Às vezes, expõe-se a ideia altamente simplista de que a superstição religiosa reinou supremamente no passado, e, por isso, Deus era visto como a causa de tudo. Se alguém ficava doente, a doença era atribuída a Deus. Agora, é claro, somos informados de que a doença resulta de micro-organismos que invadem nosso corpo, e aqueles organismos minúsculos operam de acordo com sua natureza, fazendo aquilo para o que eles evoluíram e podem fazer. De modo semelhante, enquanto, nos dias anteriores, as pessoas acreditavam que um terremoto ou um temporal era causado pelas mãos de Deus, hoje somos assegurados de que há razões naturais para esses eventos. Eles acontecem por causa de forças que são parte da ordem natural das coisas.

No século XVIII, Adam Smith escreveu um livro que se tornou o clássico da teoria econômica do Ocidente – A Riqueza das Nações. Neste livro, Smith tentou aplicar o método científico ao campo da economia, num esforço para descobrir o que causa certas reações e contrarreações econômicas no mercado. Smith queria ir além da questão da especulação e identificar as causas básicas que produziam efeitos previsíveis. Mas, embora estivesse aplicando a inquirição científica à rede de ações e reações econômicas, ele falou da “mão invisível”. Em outras palavras, Smith estava dizendo: “Sim, há causas e efeitos se movendo neste mundo, mas temos de reconhecer, acima de tudo, que tem de haver um poder causal último ou, do contrário, não haveria poderes causais inferiores. Portanto, todo o universo é orquestrado pela mão invisível de Deus”. Em nossos dias, porém, temos nos focalizado tão intencionalmente na atividade imediata de causa e efeito, que, na maior parte, temos ignorado ou negado o poder causal que abrange tudo e está por trás de toda a vida. O homem moderno não tem, basicamente, nenhum conceito de providência.

O Deus que vê

A doutrina da providência é uma das mais fascinantes, importantes e difíceis na fé cristã. Ela lida com questões difíceis, como: “Como o poder causal e a autoridade de Deus interagem conosco? Como o governo soberano de Deus se relaciona com as nossas escolhas espontâneas? Como o governo de Deus está relacionado com o mal e o sofrimento neste mundo? E como a oração tem alguma influência sobre as decisões providenciais de Deus?” Em outras palavras, como devemos levar nossa vida à luz da mão invisível de Deus?

Comecemos com uma definição simples. A palavra providência tem um prefixo, pro, que significa “antes” ou “em frente de”. A raiz vem do verbo latino videre, que significa “ver”; é desta palavra que temos a nossa palavra vídeo. Portanto, a palavra providência significa, literalmente, “ver de antemão”. A providência de Deus se refere ao seu “ver algo de antemão”, com respeito ao tempo.

A providência não é a mesma coisa que a presciência ou o conhecimento antecipado de Deus. A presciência é a habilidade de Deus de olhar para os corredores do tempo e saber o resultado de uma atividade antes que ela aconteça. No entanto, é apropriado usarmos a palavra providência com referência ao governo ativo de Deus quanto ao universo, porque ele é, de fato, um Deus que vê. Ele vê tudo que acontece no universo. Tudo está na visão plena de seus olhos.

Este pode ser um dos pensamentos mais terríveis que um ser humano pode ter – o de que há alguém que é, como Jean-Paul Sartre lamentou, um espreitador cósmico supremo, que olha através do buraco de fechadura do universo e observa cada ação de cada ser humano. Se há algo a respeito do caráter de Deus que repele dele as pessoas mais do que a sua santidade, esse algo é a sua onisciência. Cada um de nós tem um desejo intenso por um senso de privacidade que ninguém possa invadir, para intrometer-se nas coisas secretas de nossa vida.

No tempo da primeira transgressão, quando o pecado entrou no mundo, Adão e Eva experimentaram, imediatamente, um senso de nudez e vergonha (Gn 3.7). Eles reagiram por tentarem esconder-se de Deus (v. 8). Experimentaram o olhar do Deus da providência. Como o alpinista em minha anedota anterior, queremos que Deus olhe para nós quando precisamos de ajuda. Entretanto, na maior parte do tempo, queremos que ele nos ignore, porque queremos privacidade.

Numa ocasião memorável durante o ministério de nosso Senhor, os escribas e fariseus trouxeram à presença de Jesus uma mulher que eles apanharam em adultério. E lembraram a Jesus que a lei de Deus exigia que ela fosse apedrejada, mas, na verdade, queriam saber o que ele faria. Mas, quando falaram, Jesus se inclinou e escreveu algo no chão. Essa é a única vez que a Bíblia registra que Jesus escreveu, e não sabemos o que ele escreveu. Mas o relato nos informa que Jesus se levantou e disse: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (Jo 8.7). Depois, ele começou a escrever novamente no chão. Com isso, os escribas e fariseus começaram a ir embora, um por um.

Estou especulando aqui, mas pergunto se Jesus escreveu alguns dos pecados secretos que aqueles homens se mostravam zelosos em manter ocultos. Talvez Jesus escreveu “adultério”, e um dos homens, que era infiel à sua esposa, o leu e foi embora de mansinho. Talvez ele escreveu “evasão de imposto”, e um dos fariseus, que falhava em pagar impostos a César, decidiu tomar o rumo de casa. Em sua natureza divina, Jesus tinha a capacidade de ver, de maneira penetrante, por trás das máscaras que as pessoas usavam, ver as coisas secretas em que eles eram mais vulneráveis. Isso faz parte do conceito de providência divina. Significa que Deus sabe todas as coisas a nosso respeito.

Como já comentei, frequentemente achamos esta visão divina inquietante, mas o conceito da visão de Deus, de Deus nos ver, deveria ser reconfortante para nós. Jesus disse: “Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai” (Mt 10.29). Este ensino inspirou a canção popular “Deus Cuida dos Pardais”. Você lembra a letra: “Deus cuida dos pardais, e sei que ele cuida de mim”. Creio que o autor desta canção entendeu o que Jesus estava dizendo – que Deus sabe cada vez que um pequeno pássaro cai no chão. Deus não ignora nem mesmo os menores detalhes no universo. Pelo contrário, ele governa o universo com total conhecimento de tudo o que está acontecendo nele.

Sim, este tipo de conhecimento íntimo pode ser amedrontador. Mas, porque sabemos que Deus é benevolente e cuidadoso, seu conhecimento abrangente é um consolo. Deus sabe o que precisamos, antes que lhe peçamos. E, quando as nossas necessidades surgem, ele tanto pode como está disposto a ajudar-nos. Para mim, não há nada mais reconfortante do que saber que há um Deus de providência, que está ciente não apenas de cada uma de minhas transgressões, mas também de cada uma de minhas dores e de cada um de meus temores.

Fonte: Ministério FIEL – clique aqui