POR QUE JESUS DORMIA DURANTE A TEMPESTADE?

POR QUE JESUS DORMIA DURANTE A TEMPESTADE?

Dr. Scott Redd¹

No Evangelho de Marcos, a história da tempestade no mar aparece logo após Jesus ter pregado uma série de sermões. Ele havia pregado para uma multidão tão grande que teve que falar de um barco ancorado a uma curta distância da margem.

Marcos 4.35-41 relata a história de Jesus acalmando a tempestade — mas, curiosamente, o Senhor estava adormecido quando o caos irrompeu ao seu redor:

“Ora, levantou-se grande temporal de vento, e as ondas se arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-se de água. E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro; eles o despertaram e lhe disseram: Mestre, não te importa que pereçamos? E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança;” (Mc 4.37-39).

Por que estava Jesus a dormir no barco?

Há algumas explicações possíveis. Marcos, assim como a maioria dos outros autores bíblicos, não nos dá muitos detalhes — incluindo apenas os elementos necessários à agenda do autor — portanto podemos supor que é um elemento importante para a história. Há três possibilidades:

1. Uma Conexão com Jonas.

Talvez Marcos nos tenha dito que Jesus estava dormindo para conectar a história a Jonas. A história de Jonas (em sua tradução grega), compartilha elementos e linguagem semelhantes à de Marcos 4, o que sugere que Marcos estivesse tentando evocar aquela história. Um destes elementos é a ideia do personagem principal estar dormindo no fundo do barco durante a tempestade, embora a linguagem usada para descrever Jonas seja mais vívida e possivelmente pejorativa.

2. Uma Indicação Sobre a Humanidade de Jesus.

Jesus é totalmente humano: trabalhava duro, fazia muitas preleções em público e lidava com muitas pessoas diferentes, todas elas querendo algo dele. Dadas as tensões que os ministros comuns vivenciam em seus trabalhos diários, o Jesus plenamente humano deve ter sofrido de exaustão durante seu ministério terreno.

3. Uma Indicação Sobre a Divindade de Jesus.

Embora Jesus seja humano, ele tem plena confiança em sua identidade divina. Como somente a segunda pessoa da Trindade poderia fazer, em meio ao caos, Jesus dormia como um bebê, seguro na percepção de que ele é um com o Criador, e sua hora ainda não havia chegado. Seu dormir indica um insight divino: Jesus sabia que não iria morrer naquela noite.

É claro que todas estas três explicações são possíveis ao mesmo tempo, pois a linguagem humana nas mãos de um autor competente, pode transmitir várias idéias complexas de uma só vez.

Por que Estas Três Opções?

Certamente, Jesus a dormir, tem o intuito de nos fazer pensar sobre a história de Jonas (a primeira opção), na qual uma tempestade suspeita acontece e é silenciada por Deus e todas as testemunhas ficam aterrorizadas. Lembre-se de que os marinheiros lançaram sortes perguntando: “por causa de quem nos sobreveio este mal?” A sorte caiu sobre Jonas. Eles relutantemente lançaram o profeta ao mar e imediatamente cessou o mar de sua fúria. A ênfase está em quem é que acalma a tempestade. O SENHOR, Criador dos céus e da terra acalmou a tempestade e os marinheiros sabem que acabaram de testemunhar a mão de Deus e sua completa autoridade sobre as forças da criação. Em Jonas 1.16, “Temeram, pois, estes homens em extremo ao SENHOR”. A tradução grega deste texto enfatiza o grande medo que os marinheiros sentiram ao verem o poder de Deus ser demonstrado. É até mesmo maior do que o medo da tempestade (1.5). É amedrontador saber que o Deus cósmico, que acalma a tempestade, também se importa com a rebelião de um único homem.

Em Marcos, Jesus também está a dormir. Os discípulos o despertam por medo de perder suas vidas (tal como em Jonas, aquele que dorme é despertado com uma pergunta retórica), e o vento e as ondas se aquietaram. Marcos parece estar chamando nossa atenção para o agente que acalmou a tempestade. Em Jonas o agente foi o SENHOR, mas em Marcos 4 foi Jesus. Jesus está para a tempestade em Marcos 4 como Deus estava para o vento e as ondas em Jonas 1.

E como que para enfatizar este ponto ainda mais, os discípulos que testemunharam tudo isto são descritos praticamente com a mesma fraseologia usada na tradução grega de Jonas. Ficaram “possuídos de grande temor” (Mc 4.41). A tempestade havia sido aterrorizante, mas este profeta no barco com o poder de falar a verdade aos elementos se torna um motivo inteiramente novo de medo. A autoridade de Deus inspira este tipo de medo naqueles que a observam em primeira mão.

Mas a segunda opção também é válida. Jesus a dormir no barco é um lembrete de sua humanidade. É uma ideia fascinante que houve momentos regulares em que o Deus-homem, o Senhor do universo, pode ter se deitado e ponderado alguns pensamentos aleatórios antes que o sono chegasse. Como humano, ele podia ficar cansado, até mesmo ao ponto de exaustão. Portanto, ele entra no barco e se deita, tal como um viajante de negócios em um voo noturno, tentando dormir enquanto pode. Os leitores de Marcos podem prontamente se identificar com a humanidade de Jesus.

A terceira opção também é convincente. Somente o fato de que Jesus ficou dormindo, é uma indicaçāo de sua divindade. De que maneira? Jesus não tinha medo do vento ou das ondas ou de qualquer coisa que estes lhe pudessem fazer. O Criador não necessita ficar inquieto diante de uma criação perigosa. Quando Jonas secretamente dormiu no porāo, ele fez isto com um espírito de fatalismo e de pavor. Quando Jesus dormiu na popa do barco, ele o fez em confiança. Ele não perdia o sono por causa de padrões climáticos.

Jesus é mais que um mestre; ele é um realizador de milagres. Quando o leitor compreende este ponto, Marcos aumenta a aposta mais ainda.

Jesus é mais que um mestre e mais que um realizador de milagres. Ele tem a autoridade do próprio Criador.

Fonte: CoalizãoPeloEvangelho.org

Dr. Scott Redd é presidente e professor associado do Antigo Testamento no Seminário Reformado Teológico, em Washington, DC, EUA. É o autor de “The Wholeness Imperative: How Christ Unifies our Desires, Identity, and Impact in the World” [O Imperativo da Totalidade: Como Cristo Unifica Nossos Desejos, Identidade e Impacto no Mundo] (Christian Focus, 2018) e de “Wholehearted: A Biblical Look at the Greatest Commandment and Personal Wealth” [De Todo o Coraçāo: Análise Bíblica do Maior Mandamento e da Riqueza Pessoal] (Institute for Faith, Work, & Economics, 2016), e ele regularmente escreve no blog sunergoi.com.

O AMOR PRÁTICO

O AMOR PRÁTICO

Ev. Rodrigo Gonçalez

“Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1 João 3:18).

O que é o amor? Em nossa sociedade líquida, de relacionamentos descartáveis e amizades deletáveis, o conceito de “amor” ficou completamente banalizado. As pessoas dizem que amam hoje, para que amanhã o seu objeto e alvo de amor, por se tornar, digamos assim, obsoleto, é jogado fora e trocado por algo “novo e melhor”, de preferência por outro “da moda”.

Amar não é simplesmente “gostar de” ou se “sentir atraído por”. Isso é bastante superficial e infantil. Por vezes, tais sentimentos são egoístas pois advém de um coração maldoso (Jr 17.9).

O conceito de amor bíblico é algo muito mais profundo do que um sentimento momentâneo e pecaminoso. Nas Sagradas Escrituras, aprendemos que o amor está envolvido em um ato de aliança, que exige compromisso, responsabilidade, sacrifício e atitudes em benefício do objeto de amor. Respeito e dedicação também estão envolvidos. Amor é muito mais do que sentimento; antes, envolve atitudes concretas, objetivas e próprias ao outro.

Paulo, escrevendo aos Coríntios, afirma que: “O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Co 13.4-7). Quão distante nossa geração está do amor bíblico!

O maior ato de amor revelado na Bíblia é a entrega sacrificial do Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, que voluntariamente se humilhou para sofrer e morrer em favor dos seus escolhidos – e destes apenas. Nunca houve e nunca haverá ato mais sublime e glorioso de amor na história. O amor de Deus revelado a pecadores não são apenas palavras, mas foi uma atitude cósmica que custou um Deus crucificado. “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

Portanto, nós devemos responder a este amor divino não apenas crendo nEle, mas provando que cremos de fato e de verdade, quando obedecemos e nos submetemos de forma amorosa à sua gloriosa Palavra. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Amar a Deus implica obedecer e se submeter criteriosamente à Sua Palavra. Você tem amado a Deus, de verdade? Que possamos meditar em nosso relacionamento com Deus e também com aqueles que dizemos que amamos. Amém.

VOCÊ CONTINUARÁ CRENTE AMANHÃ?

VOCÊ CONTINUARÁ CRENTE AMANHÃ?

Por John Piper

Cristão, como você sabe que você será um crente quando você acordar de manhã? E cada manhã até você encontrar Jesus?

A resposta bíblica é: Deus vai cuidar disso.

Você está satisfeito com isso? Isso faz você ficar apreensivo ao admitir que depende decisivamente de Deus? Espero que isso seja sua alegria e canção. Crer assim tem grandes implicações. Deixe a palavra moldar a sua mente nisso.

DEVEMOS PERSEVERAR NA FÉ PARA ENTRAR NO PARAÍSO.

A palavra “devemos” em si mesma não é uma palavra evangélica. Em si mesma, dá a sensação de ameaça e peso. Mas não está por si mesma na Bíblia. “Devemos” ocorre junto de “ele vai” e “nós vamos”. “Nós devemos” se torna “nós vamos” porque “Deus vai”.

  • “Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo.” (Marcos 13:13). Nós devemos perseverar.
  • “Se perseveramos, também com ele reinaremos; se o negamos, ele, por sua vez, nos negará;” (2 Timóteo 2:12).
  • “Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho …por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra … a menos que tenhais crido em vão.” (1 Coríntios 15:1-2).

DEUS VAI CUIDAR DISSO.

A perseverança na fé não é devida a nossa primeira profissão de fé como a saúde é devida a uma vacina apenas. A perseverança na fé ocorre porque o grande médico faz o seu trabalho de sustentação todos os dias. Continuamos crendo em Cristo não por causa dos anticorpos deixados na conversão, mas porque Deus faz sua obra de dar a vida e preservar a fé todos os dias.

  • “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória,” (Judas 1:24).
  • “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.” (Filipenses 1:6).
  • “Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim.” (Jeremias 32:40).
  • “(Cristo) também vos confirmará até ao fim… Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.” (1 Coríntios 1:8-9).
  • “O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial” (2 Timóteo 4:18).

NÓS VAMOS PERSEVERAR NA FÉ.

Porque Deus vai cuidar disso, nós vamos — não apenas devemos — perseverar até o fim. Se fomos justificados pela fé, nós seremos glorificados. É tão certo quanto garantido.

“E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.” (Romanos 8:30).

QUATRO “R’S” DERIVAM DESSA SEGURANÇA.

Renúncia

Nós renunciamos o peso da auto-preservação. Nós paramos de nos agitar e deixamos o bombeiro valente nos carregar para fora casa que está queimando. Nós não conseguimos sair. Ele consegue. Ele vai. “Eu sei, ó SENHOR, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos.” (Jeremias 10:23).

Regozijo

Não ecoa o seu coração a alegria de Charles Spurgeon quando ele disse: “Oh querido amigos, o coração de alguém se regozija em pensar naqueles potentes deveres e afazeres — aqueles pilares inflexíveis que a morte e o inferno não podem abalar — os deveres e afazeres de um Deus” (The Metropolitan Tabernacle Pulpit Sermons, Vol. IX (364)? “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará.” (1 Tessalonicenses 5:24).

Repouso

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28). O jugo é suave e a carga é leve porque Deus diz: Eu vou te carregar e você vai repousar em mim. “Até à vossa velhice, eu serei o mesmo e, ainda até às cãs, eu vos carregarei; já o tenho feito; levar-vos-ei, pois, carregar-vos-ei e vos salvarei.” (Isaías 46:4).

Risco

Se você sabe que o seu futuro é seguro pelo seu onipotente e fiel Deus, as ameaças da terra e do inferno não podem evitar que você propague Sua Fama. A inferência que Paulo extraiu de “aos que justificou, a esses também glorificou” foi “Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8:31). Portanto, vamos correr o risco de “tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada” (Romanos 8:35). Porque nada pode nos separar do amor de Deus, que está em Cristo (Romanos 8:39).

FONTE: DesiringGod.com – clique aqui

A GUERRA PELA VERDADE

A GUERRA PELA VERDADE

Ev. Rodrigo Gonçalez

“O Senhor te responda no dia da tribulação; o nome do Deus de Jacó te eleve em segurança. Do seu santuário te envie socorro e desde Sião te sustenha” (Salmos 20.1,2).

O Salmo 20 contém uma oração comum, proferida pela Igreja em favor do Rei de Israel; elaborado para ser um cântico para quando o rei sai para a guerra; para que Deus o socorresse em meio aos perigos do campo de batalha; protegesse, sustentasse e também prosperasse o seu reino.

Os quartéis generais de Cristo estão sob constantes e poderosos ataques inimigos. Por isso, precisamos orar/cantar este Salmo hoje direcionado à Igreja e o seu cabeça, Jesus Cristo; o seu eterno Rei. Essa oração pede o estabelecimento do reinado de Jesus Cristo “aqui na terra como no céu”, através da Palavra de Deus, sustentada pela Igreja verdadeira, que é “coluna e baluarte da verdade”.

Eis a grande e gloriosa batalha espiritual dos nossos dias: A Guerra pela Verdade de Deus! A guerra é parte integral da vida cristã no tempo presente, enquanto peregrinos somos neste mundo tenebroso. Somos convocados a estarmos presentes no campo de batalha espiritual para que lutemos as batalhas de Deus (Ef 6.10-18), com armas espirituais (2 Co 10.4).

Os bombardeios contra a Igreja de Deus são lançados como mísseis da mentira, do engano e da malícia do pecado. Como o nosso Rei, precisamos combater a mentira com a Verdade (Mt 4.1-11). Nunca podemos confiar em nossas estratégias e forças, em carros ou em cavalos; mas, “nós, porém, nos gloriaremos em nome do SENHOR, nosso Deus” (v. 7).

Que o Senhor dos Exércitos nos responda nestes dias de grande tribulação que vivemos, onde a Verdade de Deus vem sendo atacada de forma tão avassaladora. Que em meio a esses ataques terríveis, nós, o povo do Pacto, sejamos sustentados e preservados pelo Deus do Pacto; livres da mentira e do engano dos falsos profetas e das falsas igrejas do nosso tempo. Que nossa oração final seja: “responde-nos, quando clamarmos” (v. 9)! Que o Reino de Deus avance através de sua Igreja! Que o seu testemunho seja preservado! Que a sua Palavra seja proclamada! Que os seus eleitos sejam eficazmente chamados! Que nos mantenhamos firmes, de pé, até a sua gloriosa vinda! Amém!

E LHES ENXUGARÁ DOS OLHOS TODA LÁGRIMA

E LHES ENXUGARÁ DOS OLHOS TODA LÁGRIMA

R. C. Sproul¹

Como pastor e teólogo, tive que pensar em muitas questões difíceis ao longo dos anos. Verdade seja dita, no entanto, o problema mais difícil que enfrentei foi o problema do sofrimento. Todos nós enfrentamos o sofrimento de alguma forma e conhecemos pessoas que viveram vidas tão dolorosas que nos perguntamos como elas puderam prosseguir.

Longe de nós queremos minimizar ou negar a dor que o sofrimento traz. O cristianismo não é um sistema de negação estoica, no qual fingimos que está tudo bem mesmo quando estamos suportando as piores coisas. Ao mesmo tempo, não nos atrevemos a esquecer a esperança cristã de que um dia o sofrimento sumirá para sempre. Quando lidamos com o sofrimento, tendemos a fixar completamente nossa visão no presente, mas a resposta cristã ao sofrimento olha para além do presente, olhamos para o futuro, ao mesmo tempo em que tentamos, tanto quanto formos capazes, aliviar o sofrimento do presente.

A verdadeira essência do secularismo está na tese de que o “hic et nunc”, o aqui e agora, é tudo o que existe, não há reino do eterno. Entretanto, como cristãos, somos chamados a considerar o presente à luz do eterno. É isso que Jesus pregou repetidas vezes. Que aproveita ao homem se, nesse momento e lugar, ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua própria alma? (Lc 9.25).

A Escritura diz que o fim define o significado do começo (Ec 7.8). Somente Deus conhece, de forma abrangente, o fim desde o princípio, mas em sua Palavra Ele nos dá um vislumbre do fim para o qual estamos nos movendo, se pudermos concentrar nossa atenção no final, e não apenas no agora e na dor que experimentamos aqui, podemos começar a entender nossa dor na perspectiva correta.

Ao revelar o novo céu e a nova terra, Apocalipse 21–22 nos dá um dos vislumbres mais claros do futuro. Deixe-me tocar em alguns destes vislumbres.

“Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima”, (Ap 21.3-4). Quando eu era menino, minha vida era difícil. Havia um menino valentão em nossa comunidade que era muito maior do que eu. Às vezes, ele me batia e eu corria para casa chorando. Minha mãe, que estava na cozinha com seu avental, dizia: “venha aqui”. Eu entrava, ela se inclinava e enxugava com a barra do avental minhas lágrimas – uma das formas mais carinhosa de comunicação. Quando minha mãe enxugava minhas lágrimas, eu realmente me sentia confortado e era encorajado a voltar para a batalha. Então eu voltava, mas, mais cedo ou mais tarde, eu me machucava novamente, chorava de novo e minha mãe tinha que enxugar minhas lágrimas mais uma vez. Porém, quando Deus enxugar nossas lágrimas, elas nunca mais fluirão novamente, por toda a eternidade (a menos, claro, que sejam lágrimas de alegria).

Essa é a perspectiva eterna. Esse é o fim que resulta do início. Nesse momento nós vivemos no vale das lágrimas, mas essa situação não é permanente porque Deus enxugará nossas lágrimas.

João diz também: “a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto,” (v 4). Morte, tristeza, choro, dor, tudo isso pertence às coisas anteriores que passarão. Posso imaginar uma conversa que eu teria com você na Nova Jerusalém. Você diria: “Lembra-se de quando nos preocupávamos com o problema do sofrimento”? Então eu responderia: “Mal me lembro do que era isso”.

No versículo 22, lemos sobre outra coisa que não existirá na Nova Jerusalém. Lá, não somente não haverá mais tristeza ou morte como também não haverá templo. Mas como pode a nova Jerusalém ser a cidade santa sem um templo? Bem, o que João está dizendo é que não haverá um templo físico mas um outro tipo de templo. João diz: ” Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro”. O mais belo santuário terrestre neste mundo será algo ultrapassado na nova Jerusalém porque estaremos na presença de Deus e do Cordeiro.

“Nunca mais haverá qualquer maldição” (22.3). Você conhece aquela música “Joy to the World² ”? Eu amo a frase da música que termina com “até onde a maldição é encontrada”. Até que ponto é isso? Nessa escuridão presente, a maldição se estende até aos confins da terra, até nossas vidas, nossos trabalhos, nossos negócios, nossos relacionamentos. Todos sofrem sob as dores da maldição de um mundo caído e é por isso que há um anseio cósmico, onde toda a criação geme esperando pela manifestação dos filhos de Deus, esperando pelo momento em que a maldição será removida (Rm 8.19). Não haverá ervas daninhas nem joio na nova Jerusalém. A terra não oferecerá resistência aos nossos arados porque a maldição não será encontrada. “Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão” (Ap 22.3).

Portanto nós temos a maior esperança de todas, a mais formidável promessa do Novo Testamento: nós veremos a face de Deus (v 4). Por toda a nossa vida podemos nos aproximar do Senhor, podemos sentir a sua presença e conversar com ele, mas não podemos ver o seu rosto. Porém, se perseverarmos em meio a dor e o sofrimento deste mundo presente, a visão de Deus nos espera do outro lado. Você pode imaginar isso? Você pode imaginar-se olhando, por um segundo, para a glória desvendada de Deus? Isso fará com que cada dor que eu já tenha experimentado neste mundo valha a pena.

“Estas palavras são fiéis e verdadeiras” (v. 6): não são os remédios ou o ópio que vão atenuar nossa dor, mas a verdade do Deus Todo Poderoso, que nos fez e nos conhece, que pelo sofrimento de seu Filho redimiu seu povo. Ele agora garante que, se estamos em Cristo somente pela fé, estamos destinados à glória, e nada pode descarrilar esse trem. Essas coisas que nos causam tanto sofrimento passarão e ele fará nova todas as coisas.

FONTE: VoltemosaoEvangelho.com

¹ R. C. Sproul nasceu em 1939, no estado da Pensilvânia. Foi ministro presbiteriano, pastor da igreja St. Andrews Chapel, na Flórida. Foi fundador e presidente do ministério Ligonier, professor e palestrante em seminários e conferências, autor de mais de sessenta livros, vários deles publicados em português, e editor geral da Reformation Study Bible.

² “N.T.” A música, a qual o autor se refere, foi traduzida para o português e é mais conhecida por “Jesus Nasceu”. No entanto, a frase citada no texto se encontra em uma porção da música que não foi traduzida para o nosso idioma.

O SERVIÇO CRISTÃO EM TEMPO DE PANDEMIA

O SERVIÇO CRISTÃO EM TEMPO DE PANDEMIA

Rev. Leonardo Gomes (1ª I.P. de Rio Pomba)

O crente é chamado ao serviço cristão a todo o tempo. Após instruir seus ouvintes acerca das bem-aventuranças, no “Sermão do Monte” (Mt 5.1-12), Cristo orienta-os a servirem (Mt 5.13-7.27). A certa altura do sermão ele ordena: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.16).

Percebemos que o serviço cristão não é uma opção para o crente, antes, é um dever cujo propósito é duplo: Testemunhar de Cristo (através do serviço) e glorificar a Deus (Ativamente – pelas nossas obras; e passivamente – pelos exemplos aos outros).

Isso não muda em tempos como o que estamos vivendo. “Tempos difíceis requerem medidas difíceis”, diz o ditado popular; mas será que “tempos difíceis” são justificativas para que o serviço cristão seja negligenciado? Será que, de fato, “farinha pouca… meu pirão primeiro”? Será que, na ausência de opção, o crente está liberado de honrar a Cristo por suas obras e glorificar ao Pai com suas atitudes? Biblicamente, a resposta é: Não!

Um exemplo de crentes que cuidaram de honrar a Deus mesmo diante das dificuldades de seus tempos são os crentes das Igrejas de Esmirna (Ap 2.8-11) e Filadélfia (Ap 3.7-13). Essas igrejas foram as únicas que não receberam nenhuma advertência do Senhor. Em seu dever de ser candeeiro de Cristo no mundo (Mt 5.16), essas igrejas estavam sendo aprovadas, mesmo diante dos altos custos que estavam pagando.

O serviço cristão em tempo de pandemia permanece inalterado. Quando isolados, em nosso lar, ele continua se revelando no cuidado com os de casa; com os vizinhos, pelo cumprimento das prescrições sanitárias e etc. O que importa é que a pandemia não justifica deixarmos de honrar a Cristo e glorificar a Deus com nossas atitudes. Sejamos operosos e diligentes!

Todavia, cumpre observar que o serviço cristão é uma possibilidade por causa de Cristo. Sem Ele, nada do que é feito possui valor inerente. A Confissão de Fé de Westminster afirma que nossas obras só têm valor em Cristo [CFW XVI.6] e nEle Deus as aceita e as recompensa. Servir é importante, é um dever do qual não podemos nos eximir, todavia, servir sem Cristo é mero ativismo.

Como tudo em nossa vida cristã, dependemos de Cristo e de seus benefícios. Se, por algum motivo, estejamos falhando em servi-Lo, devemos nos atentar que é dEle que precisamos. Quanto mais pertos dEle, mais seremos impulsionados a servi-Lo.

Como Paulo orienta aos Filipenses: “Porque é Deus quem efetua em vós tanto o querer como o realizar…” (Fp 2.13). Corramos a Cristo para que sejamos diligentes!

O SEGUNDO ADÃO

O SEGUNDO ADÃO

Dr. Guy Prentiss Waters¹

O apóstolo Paulo não acreditava que os seres humanos são basicamente pessoas boas que fazem coisas ruins. Os capítulos iniciais de sua epístola aos Romanos são dedicados à proposição de que, com exceção de Jesus Cristo, todo ser humano é por natureza injusto, culpado e merecedor de morte. “Todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado” conclui Paulo (Rm 3.9).

Esse retrato desolador e impiedoso da humanidade levanta ao menos duas questões: Por que é que não vemos exceções à depravação total universal? Existe qualquer esperança para pecadores que estão debaixo da justa condenação de Deus e que são incapazes de se livrarem do julgamento divino? Paulo responde ambas essas perguntas de forma inesperada em Romanos. Nossa difícil situação como pecadores pode ser traçada de volta até Adão. Nossa única esperança como pecadores está no segundo Adão, Jesus Cristo. Em Romanos 5.12–21, o apóstolo nos ajuda a enxergar como a obra de cada homem, Adão e Jesus, afeta os seres humanos hoje.

Em Romanos 5.14, Paulo diz que Adão “prefigurava aquele que havia de vir” isto é, Jesus Cristo. Como Jesus, Adão foi um ser humano histórico e de verdade. Embora Jesus não seja meramente um homem, ele é um homem de verdade. Paulo aqui afirma a correspondência entre Adão e Jesus. É em 1 Coríntios que o apóstolo fornece uma linguagem que nos ajuda a entender melhor a relação deles. Se Adão é “o primeiro homem,” então Jesus é “o último Adão” (1 Co 15.45). Adão é “o primeiro homem”; Jesus, “o segundo homem” (v. 47). Adão e Jesus são homens representantes. Ninguém fica entre o primeiro homem e o último Adão. E ninguém vem depois de Jesus, o segundo homem. Todo ser humano em toda época e lugar do mundo, Paulo nos conta, está em uma relação representativa ou com Adão ou com Jesus (ver vv. 47–48). É no contexto dessa relação que o que o representante fez se torna posse do representado.

Em Romanos 5, Paulo apresenta essas relações representativas sob o microscópio. O apóstolo quer que vejamos como é que a “uma ofensa” de Adão afeta todos os que estão em Adão. Ele faz isso para ajudar os crentes (aqueles que estão “em Cristo”) a enxergar como é que a obediência e morte de Cristo os afeta.

Alguns dos mais importantes termos que Paulo usa em Romanos 5.12–21 derivam do tribunal. Contra a “condenação” que pertence aos que estão em Adão está a “justificação” que pertence aos que estão em Cristo (vv. 16, 18). A palavra comumente traduzida como “feitos” no versículo 19 (“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos [κατεστάθησαν] pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos [κατασταθήσονται] justos” [ênfase do autor]) é mais precisamente traduzida como “designados”. O ponto de Paulo nesse versículo não é nem que o pecado de Adão nos transforma em indivíduos pessoalmente pecadores, nem que a obediência de Jesus nos transforma em indivíduos pessoalmente justos. O seu ponto aqui é que, à luz da desobediência de Adão, aqueles que Adão representa pertencem a uma nova categoria legal (pecador). De maneira similar, é por causa da obediência de Jesus que o seu povo tem permissão para entrar em uma nova categoria legal (justo).

O termo técnico teológico que descreve a transação envolvendo o representante e o representado é imputação. O um pecado de Adão é imputado (contabilizado, computado) a todos que ele representa. Como resultado dessa transação, todos os que estão “em Adão” entram em condenação. Quer dizer, eles são passíveis de justiça divina por conta do um pecado de Adão imputado a eles. Por outro lado, a justiça de Cristo é imputada a todos que ele representa. Como resultado dessa transação, todos que estão “em Cristo” são justificados. Deus os conta como justos, não por qualquer coisa que eles tenham feito, estão fazendo ou um dia farão. Deus justifica pecadores somente com base na perfeita obediência e completa satisfação de Cristo, que Deus imputa a eles e que eles recebem pela fé somente.

As duas imputações de Romanos 5.12–21 fornecem resposta às duas questões levantadas acima. A razão pela qual “não há justo, nem um sequer” (3.10) deriva do fato de que todos os seres humanos, exceto o segundo Adão, são por natureza condenados em Adão. Em conjunto com a condenação universal, Paulo nos mostra, está a depravação universal. É à luz da imputação do primeiro pecado de Adão aos seres humanos que essas pessoas culpadas, do momento de sua concepção, herdam a natureza caída de seus pais.

Por essas razões, não há esperança ou auxílio a ser encontrado nos que estão “em Adão”, nem também entre eles. Mas esperança e auxílio estão disponíveis para pecadores. Eles são encontrados somente em Jesus Cristo, o segundo e último Adão. Através da fé em Cristo somente, o pecador recebe a justiça de Cristo. Na base da sua justiça somente, o pecador é justificado. Seus pecados são perdoados e ele é contado como justo no tribunal de Deus. Unido a Cristo e justificado através da fé nele, o crente vem a ser transformado segundo a imagem de Cristo no poder do Espírito Santo.

Uma dificuldade que as pessoas têm expressado comumente em relação ao ensino de Paulo em Romanos 5.12–21 pode ser resumida na objeção, “Não é justo!” Muitos perguntam: “É realmente justo que Deus me castigue por algo que outra pessoa fez? Afinal, ninguém nunca me perguntou se eu queria ser representado por Adão. Como um Deus bom e justo poderia me condenar nesses termos?”

Essa objeção é séria e merece uma reflexão cuidadosa. Na verdade, a relação representativa que Deus instituiu entre Adão e os seres humanos destaca a bondade, soberania e justiça de Deus. A bondade de Deus é evidente na maneira como ele lida com Adão no jardim do Éden, e que se estende a cada pessoa que Adão representa. Deus criou Adão um homem justo. A forma de Adão pensar, escolher, sentir e seu comportamento eram todos sem pecado. Deus colocou Adão no paraíso e permitiu que ele aproveitasse sua generosidade. Deus ofereceu a Adão a promessa de vida eterna confirmada e exigiu dele apenas que se abstivesse, por um tempo, de comer de uma única árvore no jardim. É difícil conceber circunstâncias mais vantajosas para o nosso representante, Adão. Cada detalhe da aliança que Deus fez com Adão reflete a bondade de Deus. Teríamos nós como pecadores, que vivem entre pecadores em um mundo pecaminoso, qualquer esperança de prospectos melhores dos que Adão teve como nosso representante no jardim do Éden?

A relação representativa que Deus designou entre Adão e sua prole ordinária também dão testemunho da soberania e justiça de Deus.  Ambos, Adão e nós, somos criações das mãos de Deus. Deus tem o direito de comandar nossas vidas da forma como ele quiser, e nós não temos direito algum de cobrar dele uma prestação de contas (ver Rm. 9.19–20). Agindo como ele age, Deus não comete nenhuma injustiça a nós. Pelo contrário, ele age de acordo com seu caráter justo.

Devemos nos lembrar pelo menos de duas considerações adicionais e relacionadas ao pensarmos sobre a relação que Deus instituiu entre Adão e os seres humanos. Primeiro, Deus não instituiu tal relação entre os anjos. Cada anjo se encontra em uma posição individual perante Deus. Alguns anjos têm permanecido obedientes a Deus, enquanto outros anjos caíram em pecado. Deus não providenciou um mediador para esses anjos caídos, e ele não os oferece misericórdia salvadora. Tendo “[abandonado] o seu próprio domicílio,” eles estão “[guardados] sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia” (Judas 6).

Em segundo lugar, é através do mesmo tipo de relação representativa na qual nós, em Adão, caímos em pecado que Deus tem redimido pecadores caídos e indignos. Quando o pecador é unido a Jesus Cristo através da fé somente, ele passa de condenação para justificação e gratuitamente recebe a justiça de Jesus Cristo. O pecador não recebe esse presente de justiça por causa de nada que ele próprio tenha feito, está fazendo ou irá um dia fazer. Deus, pelo contrário, graciosamente imputa essa justiça ao pecador, que a recebe pela fé. E até essa fé é dom de Deus (Ef 2.8; Fp 1.29).

Por essa razão, nós como cristãos olhamos para a salvação que recebemos em Cristo e dizemos, “Não é justo!” Dizemos isso não com punhos cerrados de raiva e resistência, mas com a mão aberta de louvor e ação de graças. As boas-novas do evangelho são que Deus não nos deu o que merecemos. O que merecemos é condenação eterna. Mas Deus derramou nossos pecados em Jesus Cristo na cruz, e ele creditou a nós a justiça de seu Filho quando cremos (2 Co 5.21). Deus não nos deu o que é devido. Ele nos deu o que é devido a Cristo. Ele nos deu bênção no lugar de maldição, justificação no lugar de condenação, vida no lugar de morte e esperança no lugar de desespero. E ao fazer isso, mostrou-nos ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé no seu Filho (ver Rm 3.26).

No dia do julgamento, pecadores impenitentes não serão capazes de culpar ninguém além de si mesmos (2.1–11). Eles serão sentenciados e condenados justamente, e suas “bocas serão caladas” [4] (Rm 3.19). Nesse mesmo dia, nós como redimidos não nos orgulharemos em nós mesmos. Atribuiremos todo louvor e glória ao nosso Salvador, o segundo Adão, o Senhor Jesus Cristo.

Esse dia ainda não chegou. Até lá cristãos podem começar a louvar a Cristo em mente e corpo, em palavra e obra. E podemos apontar outros ao Deus que, sendo rico em misericórdia e abundante em amor, vivifica pecadores mortos juntamente com Cristo (Ef 2.4–5).

FONTE: VoltemosaoEvangelho.com

¹Dr. Guy Prentiss Waters é professor de Novo Testamento no Reformed Theological Seminary em Jackson, Mississippi. Ele é autor do livro How Jesus Runs the Church.

DEUS, A MELHOR PORÇÃO DO CRISTÃO

DEUS, A MELHOR PORÇÃO DO CRISTÃO

Jonathan Edwards

“Quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti.” (Salmos 73:25)

Neste salmo, o salmista Asafe relata a grande dificuldade que havia em sua mente ao observar os ímpios. Ele diz nos versículos 2 e 3: “Quanto a mim, porém, quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos. Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos”. No versículo 4, nos informa o que, nos ímpios, era o motivo de sua tentação. Em primeiro lugar, observa que eram prósperos e tudo lhes ia bem. Observa também o comportamento deles na prosperidade e o uso que faziam dela; e que Deus, apesar dos abusos, aumentava-lhes a prosperidade. Então, nos mostra de que maneira foi auxiliado nessa dificuldade, isto é, indo ao santuário (vv. 16-17), e procede para nos informar quais foram as considerações que o auxiliaram lá:

1. A consideração do fim miserável dos ímpios. Ainda que prosperem no presente, chegarão, contudo, a um lamentável fim (vv. 18-20).

2. A consideração do fim bendito dos santos. Embora esses enquanto vivem possam ser afligidos, contudo terão um fim feliz (vv. 21-24).

3. A consideração de que o justo possui uma porção muito superior à do ímpio, embora não possua outra porção senão Deus, como mostra o texto e os versículos seguintes.

Ainda que os ímpios vivam na prosperidade e não tenham problemas como os demais homens, contudo os piedosos, mesmo afligidos, estão em estado infinitamente melhor, porque têm Deus por sua porção. Não precisam desejar nada mais, pois quem tem Deus, tem tudo. Assim o salmista professa o senso e apreensão que teve das coisas: “Quem mais tenho eu no céu? E na terra não há quem eu deseje além de Ti” (Salmos 73:25)

No versículo imediatamente anterior (Salmos 73:24), o salmista observa como os santos são felizes em Deus, tanto quando estão neste mundo, como quando são levados ao outro. São benditos em Deus aqui, pois Ele os guia com os Seus conselhos; e quando os toma, ainda são felizes, pois Ele os recebe na glória. Provavelmente isso o levou, no texto, a declarar que não desejava outra porção quer neste mundo ou no porvir, quer no céu, quer na terra.

Daí aprendemos que:

Doutrina: É o espírito de um homem verdadeiramente piedoso preferir Deus antes de todas as coisas, quer no céu, quer na terra.

I. Um homem piedoso prefere Deus antes de todas as coisas no céu.

1. Ele prefere Deus antes de qualquer coisa que haja, de fato, no céu. Todo homem piedoso tem o Céu no coração. Suas afeições estão depositadas no que deve haver lá. O Céu é sua pátria e herança escolhidas. Ele tem respeito pelo Céu assim como um viajante, que está em terra distante, tem pelo seu país. O viajante pode contentar-se em estar em terra estranha por pouco tempo, mas sua própria terra nativa é preferida por ele acima de tudo (Hebreus 11:13): “Todos estes morreram na fé sem ter obtido as promessas; mas foram persuadidos delas e confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria”. O respeito que o justo tem pelo Céu pode ser comparado ao de uma criança, que está no estrangeiro, tem pela casa de seu pai. Ela pode estar satisfeita por pouco tempo, mas o lugar para onde deseja retornar e onde quer morar é sua própria casa. O Céu é a morada do Pai dos verdadeiros santos. João 14:2: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. João 20:17: “Subo para meu Pai e vosso Pai”.

Agora, a razão pela qual os piedosos têm desse modo o coração no Céu é porque Deus está lá — é o palácio do Altíssimo. É o lugar onde Deus está gloriosamente presente, onde Seu amor é gloriosamente manifesto, onde o piedoso pode estar com Ele, vê-lO como Ele é, e amá-lO, servi-lO, louvá-lO e gozá-lO perfeitamente. Se Deus e Cristo não estivessem no céu, eles não seriam tão ávidos em buscá-lo, nem suportariam tantas dores em uma laboriosa jornada através deste deserto, nem a consideração de que irão ao Céu após a morte serviria de conforto nos labores e aflições. Os mártires não suportariam sofrimentos cruéis de seus perseguidores com uma alegre perspectiva de irem ao céu, se lá não esperassem estar com Cristo, e regozijar-se com Deus. Não esqueceriam alegremente as suas posses terrenas, e todos os amigos mundanos, como milhares deles fizeram, vagando na pobreza e na rejeição, sendo indigentes, afligidos, atormentados, trocando sua herança terrena por uma celestial, não fosse sua esperança de estar com seu glorioso Redentor e com o Pai celeste. O coração do crente está no céu, porque o seu tesouro está lá.

2. O homem piedoso prefere Deus antes de qualquer coisa que possa haver no céu. Não apenas não há nada no Céu que rivalize na sua estima com Deus; mas nada há que ele possa conceber, nada que possivelmente esteja lá, que seja mais estimado ou desejado por ele do que Deus. Alguns supõem que há no Céu delícias bem diferentes daquelas que as Escrituras nos ensinam. Os muçulmanos, por exemplo, supõem que no Céu devem ser desfrutados todos os tipos de delícias e prazeres sensuais. Muitas coisas que Maomé inventou são das mais convenientes para as luxúrias e apetites carnais dos homens que se possa imaginar, e, com elas, lisonjeou seus seguidores. Mas os verdadeiros santos não conseguem imaginar algo mais adequado a suas inclinações e desejos do que o que está revelado na Palavra de Deus: um Céu de gozo do Deus glorioso e do Senhor Jesus Cristo. Lá, estarão livres de todos os seus pecados, e serão perfeitamente conformados a Deus, e passarão uma eternidade em exercícios exaltados de amor por Ele, e no usufruto do Seu amor. Se Deus não pudesse ser usufruído no céu, mas apenas vasta riqueza, imensos tesouros de prata e ouro, grande honra do tipo que os homens obtêm neste mundo, e uma plenitude dos maiores prazeres e delícias sensuais, nenhuma dessas coisas suplantaria a necessidade por Deus e por Cristo, nem a fruição deles no céu. Se este estivesse vazio de Deus, seria de fato um lugar solitário e melancólico. O piedoso está sensível que todas as diversões humanas não podem satisfazer a alma; e, portanto, nada o contentará senão Deus. Ofereça a ele o que for, se o privar de Deus, considerar-se-á miserável. Deus é o centro dos seus desejos e quando você afasta sua alma do seu centro, ela não terá descanso.

II. É a disposição natural de um homem piedoso preferir Deus a todas as coisas sobre a terra.

1. O santo prefere esse gozo de Deus, pelo qual espera no porvir, a qualquer coisa neste mundo. Não olha tanto para as coisas que são visíveis e temporais, mas para as invisíveis e eternas (1 Coríntios 4:18). O santo não desfruta senão um pouco de Deus neste mundo; não tem senão pouca intimidade com Deus, e goza um pouco das manifestações de Sua glória e amor divinos. Mas Deus prometeu lhe dar, no porvir, plena fruição. E estas promessas são mais preciosas para o santo que as mais preciosas joias terrenas. O evangelho contém maiores tesouros, em sua estima, que os cofres de príncipes ou as minas dos índios.

2. Os santos preferem o que pode ser obtido de Deus nesta vida a todas as coisas no mundo. Há grande diferença nas realizações espirituais presentes dos santos. Alguns atingem maior intimidade e comunhão com Deus e conformidade com Ele que outros. Mas as maiores realizações são ínfimas em comparação às futuras. Os santos são capazes de progredir nas realizações espirituais e sinceramente desejam estas realizações adicionais. Não contentes com os graus já alcançados, estão famintos e sedentos de justiça e, como crianças recém-nascidas, desejam o sincero leite da Palavra, para que, por ela, possam crescer. É seu desejo conhecer mais de Deus, ter mais de Sua imagem, e serem capacitados ainda mais à imitação de Deus e de Cristo em sua caminhada e conversação. Salmos 27:4: “Uma coisa peço ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR e meditar no seu templo”. Salmos 42:1-2: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face de Deus?” Salmos 63:1-2: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te busco intensamente; a minha alma tem sede de ti! Todo o meu ser anseia por ti, numa terra seca, exausta e sem água”. Veja também o Salmos 84:1-3 e Salmos 130:6: “A minha alma anseia pelo Senhor mais do que os guardas pelo romper da manhã. Eu digo, mais do que os guardas pelo romper da manhã”.

Ainda que nem todo santo tenha este ávido desejo por Deus no mesmo grau que tinha o salmista, contudo são do mesmo espírito; desejam sinceramente ter mais de Sua presença em seus corações. Que este é o temperamento do piedoso em geral e não apenas de alguns santos em particular, mostra-se em Isaías 26:8-9, onde se fala não de algum santo em particular, mas da igreja em geral o seguinte: “Também através dos teus juízos, SE-NHOR, te esperamos; no teu nome e na tua memória está o desejo da nossa alma. Com minha alma suspiro de noite por ti e, com o meu espírito dentro de mim, eu te procuro diligentemente; porque quando os teus juízos reinam na terra, os moradores do mundo aprendem justiça”. Veja também Cânticos 3:1-2; 5:6-8.

Os santos nem sempre estão nestes vívidos exercícios da graça: mas possuem tal espírito e têm o sensível exercício dele. Desejam Deus e as realizações Divinas mais do que todas as coisas terrenas; e buscam ser ricos em graça mais do que fazem para obter todas as riquezas. Desejam a honra que procede de Deus, mais do que a dos homens (João 5:44) e comunhão com Ele mais do que qualquer prazer terreno. São do mesmo espírito que o apóstolo expressa em Filipenses 3:8: “Sim, deveras considero tudo como perda por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo”.

3. O santo prefere o que já tem de Deus a qualquer coisa neste mundo. O que foi infundido no seu coração na conversão lhe é mais precioso que qualquer coisa que o mundo possa ofertar. As visões que, às vezes, lhe são concedidas da beleza e excelência de Deus, lhe são mais preciosas que todos os tesouros dos ímpios. Ele valoriza mais a relação de filho na qual está para com Deus, a união que há entre sua alma e Jesus Cristo, do que a maior dignidade terrena. Essa imagem de Deus que está estampada em sua alma, ele valoriza mais do que quaisquer ornamentos terrenos. Em sua estima, é melhor ser adornado com as graças do Espírito Santo de Deus do que brilhar em joias de ouro, e com as mais caras pérolas, ou ser admirado pela maior beleza exterior. Valoriza mais o manto da justiça de Cristo, que tem em sua própria alma, do que os mantos de príncipes. Prefere os prazeres e delícias espirituais que, às vezes, tem em Deus, muito mais que todos os prazeres do pecado. Salmos 84:10: “Pois um dia nos teus átrios vale mais que mil; prefiro estar à porta da casa do meu Deus, a permanecer nas tendas da perversidade”.

Desse modo, o santo prefere Deus a todas as coisas neste mundo, pois:

1. Prefere Deus a todas as coisas que possui no mundo. Prefere Deus a todos os gozos temporais. Salmos 16:5-6: “O SENHOR é a porção da minha herança e o meu cálice; tu és o arrimo da minha sorte. Caem-me as divisas em lugares amenos, é mui linda a minha herança”. Se for rico, o seu coração está principalmente nas riquezas celestiais. Prefere Deus a todos os amigos terrenos, e o favor Divino a qualquer respeito obtido de criaturas semelhantes. Embora, inadvertidamente, tenham lugar no seu coração, e lugar até demais; contudo reserva o trono para Deus. Lucas 14:26: “Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”.

2. Ele prefere Deus a qualquer prazer terreno do qual tenha perspectiva. Os filhos dos homens põem, comumente, sua confiança mais em alguma felicidade terrena que esperam e pela qual buscam, do que naquilo que têm em posse no presente. Mas um homem piedoso prefere Deus a todas as coisas que espera neste mundo. Ele pode, com efeito, pela prevalência da corrupção, deixar-se por um tempo se levar por algum divertimento; contudo, cairá novamente em si, não sendo este seu temperamento, uma vez que é outro o seu espírito.

3. É o espírito de um homem piedoso preferir Deus a qualquer gozo terreno que possa conceber. Prefere-o não apenas a qualquer coisa que possui, mas nada vê em posse de outras pessoas que seja tão estimável. Tivesse ele a maior prosperidade do mundo, ou pudesse satisfazer todos os seus desejos terrenos, ainda assim, valorizaria a porção que já tem em Deus incomparavelmente mais. Ele prefere Cristo aos reinos terrenos.

Aplicação

1. Portanto, podemos aprender que quaisquer que sejam as mudanças pelas quais passe o justo, ele é feliz. Isso porque Deus, que é imutável, é sua porção preferida. Embora enfrente perdas temporais, seja privado de muitas, sim, até mesmo de todas as alegrias transitórias, contudo Deus, a quem prefere acima de tudo, ainda permanece e não pode ser perdido. Enquanto está neste mundo mutável, cheio de problemas, é feliz, pois sua porção escolhida, sobre a qual constrói o fundamento de sua felicidade, está acima do mundo e acima de todas as mutações. E quando vai ao outro ainda é feliz, pois sua porção permanece. Pode ser privado de tudo, exceto de sua principal porção; sua herança permanece segura.

Pudessem os homens de mente carnal encontrar um modo de assegurar para si as alegrias terrenas, em que seus corações estão principalmente firmados, de forma que não pudessem ser perdidas nem diminuídas enquanto vivessem, como considerariam grande privilégio, ainda que outras coisas que estimam em menor grau estivessem sujeitas à mesma incerteza de agora! Por outro lado, esses prazeres terrenos nos quais os homens depositam principalmente seus corações, são, com frequência, transitórios. Mas como é grande a felicidade daqueles que escolheram a Fonte de todo bem, que O preferem a todas as coisas no Céu ou na terra e que jamais podem ser privados dEle por toda a eternidade!

2. Que todos à vista dessas coisas examinem e testem a si mesmos, se são santos ou não. Uma vez que o que foi exposto é o espírito dos santos, e lhes é peculiar, ninguém pode usar a linguagem do texto e dizer: “Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra”, senão os santos. A escolha de um homem é o que determina seu estado. O que escolhe Deus por sua porção e O prefere a todas as coisas é um homem piedoso, pois esse O escolhe e adora como Deus. Honrá-lO como Deus é respeitá-lO acima de todas as coisas; e se alguém O honra como o seu Deus, seu Deus Ele é; há uma união e relação de pacto entre esse homem e o verdadeiro Deus. Todo homem é à semelhança de seu Deus. Se quiser saber quem é o homem, se é piedoso ou não, questione-o sobre quem é o seu Deus. Se o verdadeiro Deus for aquele a quem tem supremo respeito, a quem considera acima de tudo, sem dúvidas, ele é um servo do Deus verdadeiro. Mas se o homem tem algo a mais pelo qual tem maior respeito do que a Jeová, então este homem não é piedoso.

Questionem-se, portanto, quanto a sua situação; vocês preferem Deus acima de todas as coisas? Às vezes, pode ser difícil a determinação satisfatória disso, pois o ímpio pode ser ludibriado por falsas afeições e o piedoso, baseado em débeis padrões, pode perder [a noção] destas coisas. Portanto, vocês devem fazer uma autoanálise quanto a esta matéria, de diversos modos; se não puderem falar plenamente sobre uma coisa, talvez possam em relação a outras:

1. Qual é o desejo principal que os faz querer ir ao Céu quando morrerem? É verdade que alguns não têm grande desejo de ir para o céu. Não se importam em ir para o inferno, mas se pudessem escapar dele, não teriam muita preocupação com o céu. Se este não for o seu caso, mas vocês acham que têm desejo de ir para o céu, então se questionem quanto ao porquê disso. É precipuamente por querer estar com Deus, ter comunhão com Ele, e ser conformado a Ele para que possam vê-lO, e desfrutá-lO lá? É esta a consideração que guarda seus corações, e desejos e expectativas em relação ao céu?

2. Se vocês pudessem evitar a morte, e tivessem livre escolha, escolheriam viver sempre neste mundo sem Deus, ao invés de, no tempo dele, partir do mundo a fim de estar com Ele? Se pudessem viver aqui em prosperidade terrena por toda a eternidade, mas destituídos da Sua presença e comunhão, não tendo relação espiritual entre Deus e suas almas, sendo vocês e Deus alienados uns dos outros para sempre, escolheriam isso ao invés de partir do mundo, a fim de habitar no Céu como filhos de Deus, aproveitando lá os privilégios gloriosos de filhos, em um amor santo e perfeito a Ele, e no Seu gozo por toda a eternidade?

3. Vocês preferem Cristo a todos os outros como o caminho para o céu? Aquele que escolhe verdadeiramente Deus, O prefere em cada pessoa da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo: o Pai, como seu Pai; o Filho como seu Salvador; o Espírito Santo como seu Santificador. Questionem-se, portanto, não apenas se escolheram o gozo de Deus no Céu como sua mais alta porção e felicidade, mas também se escolheram a Jesus Cristo antes de todas as coisas, como o caminho para o céu; e isso com um senso da excelência de Cristo, e do caminho da salvação por Ele, como sendo algo [que serve] para a glória de Cristo e da soberana graça. É o caminho da livre graça, pelo sangue e justiça do bendito e glorioso Redentor, o caminho mais excelente para a vida em sua estima? Isso acrescenta valor para a herança celestial que é desta forma conferida? Isso é muito melhor para vocês que ser salvo por suas próprias justiças, por quaisquer de suas realizações, ou por qualquer outro mediador?

4. Se pudessem ir para o Céu da maneira que lhes agradasse, vocês prefeririam a todos os outros o caminho do estrito andar com Deus? Os que preferem Deus da maneira como foi representado escolhem-nO não apenas no fim, mas no meio. Preferem estar com Deus a qualquer outro, não apenas quando chegam ao fim de sua jornada, mas também enquanto estão na sua peregrinação. Preferem andar com Deus, embora seja caminho de labor, e cuidado, e auto renúncia ao invés do caminho do pecado, embora este seja caminho de ociosidade e gratificação das luxúrias.

5. Se vocês pudessem passar a eternidade neste mundo, escolheriam antes viver em circunstâncias humildes e rebaixadas, tendo a graciosa presença de Deus, a viver para sempre na prosperidade sem Ele? Prefeririam gastá-la no santo viver, servindo e andando com Deus e no gozo dos privilégios de seus filhos? Deus, com frequência, se manifestando a vocês como Pai, revelando-lhes a Sua glória, manifestando Seu amor e levantando a luz do Seu rosto sobre vocês! Escolheriam antes essas coisas, embora em pobreza, a abundar nas coisas mundanas, vivendo na opulência e prosperidade, e, ao mesmo tempo, sendo um estranho à aliança de Israel? Poderiam se satisfazer em não estar em relação filial com Deus, não gozar de gracioso relacionamento com Ele, não tendo direito algum de serem reconhecidos como filhos? Ou tal vida, mesmo que com enorme prosperidade terrena, seria por vocês estimada como miserável?

Se, apesar de tudo, vocês permanecerem em dúvida, e com dificuldade em determinar se preferem verdadeira e sinceramente Deus a todas as outras coisas, mencionarei duas coisas que são os modos mais certos de determinar-se nesta matéria, e que parecem ser as melhores bases de satisfação nela.

1. O sentimento de algum particular, forte e vívido exercício de tal espírito. Uma pessoa pode ter tal espírito que é referido na doutrina, e ter o exercício dele em um grau inferior, e ainda assim permanecer em dúvida quanto a tê-lo ou não, e ser incapaz de chegar a uma determinação satisfatória. Mas Deus se agrada de, às vezes, dar descobertas de Sua glória, e da excelência de Cristo, a fim de impelir o coração, para que saibam além de toda dúvida, que sentem o mesmo espírito referido por Paulo quando disse que considerava todas as coisas como perda por causa da excelência de Cristo Jesus, seu Senhor, e possam dizer tão ousadamente como ele, e como o salmista, no texto: “Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra”.

Em tais tempos o povo de Deus não precisa da ajuda de ministros para satisfazê-los quanto a terem o verdadeiro amor de Deus, pois claramente o veem e sentem; e o Espírito de Deus então testemunha com seus espíritos que são filhos de Deus. Portanto, se vocês estiverem satisfeitos a este ponto, e honestamente buscam tais realizações; busquem para que possam ter claros e vívidos exercícios deste espírito. Para este fim, devem se esforçar para crescer em graça. Embora tenham tido tais experiências no passado, e elas os satisfizeram então, contudo, vocês podem novamente entrar em dúvidas. Devem, portanto, buscar para que elas sejam mais frequentes, e o caminho nessa direção é sinceramente seguir adiante, para que tenham mais intimidade com Deus, e tenham os princípios da graça fortalecidos. Este é o caminho para fortalecer os exercícios da graça, vivificá-los, e torná-los mais frequentes, e assim serem satisfeitos em ter um espírito de amor supremo a Deus.

2. O outro caminho é inquirir se vocês preferem Deus a todas as coisas na prática, isto é, quando têm a ocasião de manifestar pela sua prática aquilo que vocês preferem, quando podem se apegar a um ou a outro, e devem esquecer-se de uma ou outra coisa, ou de Deus, se então for seu costume na prática preferirem Deus a todas as outras coisas, sejam elas quais forem, mesmo aquelas terrenas as quais seus corações estão mais ligados. Suas vidas são apegadas a Deus e O servem deste modo?

O que prefere sinceramente Deus à todas as outras coisas em seu coração, o fará na sua prática. Pois quando Deus e todas as outras coisas vierem a competir, esse é o teste apropriado para saber o que um homem prefere; e a maneira de agir em tais casos deve certamente determinar qual deve ser a escolha em todos os agentes livres, ou aqueles que agem em escolha. Portanto, não há sinal de sinceridade mais insistido na Bíblia que este: que enguemos a nós mesmos, vendamos tudo, esqueçamos o mundo, tomemos a cruz, e sigamos Cristo aonde quer que Ele vá. Portanto, corram dessa maneira, não na incerteza; assim lutem, não como quem desfere socos ao ar; mas esmurrem seus corpos e os reduzam à escravidão. E ajam não como se houvessem atingido a perfeição; mas fazendo uma coisa: “Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. E 2 Pedro 1.5: “Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo”.

FONTE: O Estandarte de Cristo – clique aqui

Jonathan Edwards (1703 – 1758) foi um pastor congregacional, teólogo calvinista e um dos maiores filósofos cristãos da história. Para saber mais sobre sua biografia, clique aqui.

LOUVEMOS AO SENHOR POR SEU FAVOR

LOUVEMOS AO SENHOR POR SEU FAVOR

Ev. Rodrigo Gonçalez

“Salmodiai ao Senhor, vós que sois seus santos, e dai graças ao seu santo nome” (Salmos 30.4).

Nós, os que cremos e confessamos o único Deus verdadeiro, somos convidados pela sua Palavra a louvar, glorificar, bendizer e exaltar o seu grande nome, em adoração verdadeira e bíblica. Esta adoração é peculiar ao povo da Aliança, escolhido desde a eternidade passada para prestar culto ao Deus Trino, que é Pai, Filho e Espírito Santo, o Criador do céu e da terra. O devido louvor pertence ao povo de Deus.

Lutero, durante a Reforma Protestante do século XVI, foi o pai do cântico congregacional. Ele viu que por mais de mil anos na Igreja os cânticos estavam nas mãos dos corais, dos monges e das freiras e não nas mãos do povo de Deus como um todo. Uma das primeiras coisas que Martinho Lutero fez em 1524 foi introduzir na Igreja o uso do hinário. Lutero deu de volta ao povo de Deus o cântico congregacional. Eles não precisavam mais vir ao culto vendo-o apenas como uma forma de performance, mas eles vinham para participar. João Calvino, posteriormente, viu também a necessidade do povo de Deus cantar as Escrituras Sagradas. Assim, a Reforma deixou um legado para a Igreja hoje: a adoração bíblica e congregacional.

Não apenas isso, mas as nossas vidas devem ser expressões de louvor e gratidão a Deus. Neste Salmo, Davi diz “clamei a ti por socorro, e tu me saraste” (v. 2). O salmista reconhece sua total e completa dependência do favor divino e que, sem Ele, estaria totalmente perdido! Por isso, sua adoração é honesta, verdadeira e exalta ao Senhor, que o livrou dos laços da morte! Então, ele pôde dizer: “Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã” (v. 5).

Podemos passar por momentos de densas trevas e terrível escuridão, mas a luz da misericórdia divina nos alcançará; basta confiarmos no poder dele, e aguardarmos pacientemente debaixo de suas mãos graciosas. Como diz uma oração puritana:

“No dia mau, que eu possa resistir ao pecado e não naufragar;
Ajuda-me a levar à vida comum porções da verdade divina
e usá-las na ocasião adequada, a fim de que
suas doutrinas me instruam,
seus alertas me refreiem,
suas regras me guiem,
e suas promessas me confortem”.

Amém!

QUEREMOS UMA IGREJA SANTA

QUEREMOS UMA IGREJA SANTA

Rev. Hernandes Dias Lopes

Santidade é uma das marcas da verdadeira igreja. Todo aquele que é salvo por Cristo Jesus é santo, ou seja, separado do mundo para Deus. Agora, pela redenção, tornamo-nos propriedade exclusiva de Deus, não pertencemos a nós mesmos. Ser separado do mundo e diferente dele para consagrarmo-nos a Deus não se constitui para nós um peso, mas aí está nosso maior deleite. Essa santidade não é a imposição de regras e mais regras, preceitos e mais preceitos, tornando a vida cristã um fardo. Ao contrário, a santificação é uma ação eficaz do Espírito Santo em nós, transformando-nos de glória em glória na imagem de Cristo. Aquilo que para nós era lucro tornou-se pura perda por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo. Andar com Deus é nossa maior alegria e nosso supremo prazer.

A Bíblia diz que sem santificação ninguém verá o Senhor. Diz também que a santificação é a vontade de Deus para nós. Deus é santo e seus filhos, que são co-participantes da natureza divina, devem também ser santos. Não há comunhão com Deus e com o pecado ao mesmo tempo. A vida no pecado nos afastará de Deus ou a comunhão com Deus nos afastará do pecado. Fomos salvos do pecado e não no pecado. Aquele que tem prazer no pecado, ainda não conhece a Deus, porque ele é a fonte da vida e na presença dele há plenitude de alegria. Santidade não é um corolário de regras religiosas impostas como fardo sobre as pessoas. A piedade não é algo exterior. Os fariseus arrotavam uma santidade externa, mas estavam cheios de impureza. Jesus os comparou como sepulcros caiados. Eles eram observadores da lei aos olhos dos homens e transgressores dela aos olhos de Deus. Devemos nos acautelar sobre o perigo de uma vida espiritual bonita aos olhos dos homens e adoecida aos olhos de Deus. A verdadeira santidade procede de um relacionamento íntimo com Deus. Não nos santificamos, somos santificados. Jesus é a nossa santificação (1 Co 1.30).

A santificação não apenas marca nossa comunhão com Deus, mas também é uma condição fundamental para a operação de Deus em nós e através de nós. O grande líder Josué disse ao povo de Israel antes de atravessar o Rio Jordão: “Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós” (Js 3.5). Deus é santo e busca homens santos para a realização da sua obra. Onde prevalece o pecado, o braço de Deus é encolhido. Israel caiu diante da pequena cidade de Aí, porque havia pecado no meio do arraial. Quando o povo de Deus amarga derrotas, não é por causa da força do inimigo, mas por causa do seu próprio pecado. O pecado é maligníssimo aos olhos de Deus. Nosso trabalho será em vão se o realizamos sem vida santa. Deus não se agrada do trabalho sem vida, da realização sem santidade. A força de uma igreja está não na beleza de seu templo, na quantidade de seus membros, ou mesmo na influência que eles exercem na sociedade, mas na excelência da sua vida de santidade. A igreja de Esmirna era pobre aos olhos dos homens, mas rica diante de Deus. A igreja de Laodicéia, porém mesmo sendo rica e abastada diante dos homens, era miserável aos olhos daquele que tudo sonda.

O jovem presbiteriano escocês, Robert Murray McCheyne, que morreu aos vinte e nove anos de idade, e que experimentou uma qualidade superlativa de vida em Cristo, disse que um crente santo é uma poderosa arma nas mãos de Deus. Você tem sido esse tipo de crente? Você está acomodado a um religiosismo frio e sem vitalidade espiritual? Está satisfeito com gotas enquanto Deus tem para você rios de água viva? Oh que nossa alma se desperte para cantarmos com Sarah Poulton Kalley:

Maravilhas soberanas, outros povos têm

Oh concede as mesmas bênçãos sobre nós também!

Santo Espírito, ouve com favor

Em poder e graça insigne

Mostra o teu favor!

Fonte: Hernandes Dias Lopes